Fracasso de soldado que aceitou ser general

picture.aspxOra, tenho consciência de já ser, até mesmo conforme os padrões oficiais, um idoso. Mas isso não me roubou, ainda, a lucidez, a energia para acompanhar as mudanças, a capacidade de interpretar, a audácia da análise e, acima de tudo, a coragem para manter viva a responsabilidade jornalística missionária. Jornalismo é missão. Foi o que aprendi, há 51 anos, com os meus primeiros mestres. E do que não consigo fugir ainda agora, quando me torno o decano dos jornalistas ainda em atividade diária em minha terra. Não tenho, pois, o direito de exibir falsa modéstia, dizendo não saber de coisas, não ter participado dessa história, fingindo ignorância de fatos que conheço e que conheci. A sabedoria socrática – “sei que não sei” – diz respeito ao conhecimento como valor ontológico. Se eu dissesse não saber da história de Piracicaba, se eu dissesse ignorar esses 51 anos de atividade plena, de participação e de observação – eu não seria modesto: faria uma confissão de tolo. E tolo não o sou.

A questão da Unimep – o esforço para descontruí-la e liquidá-la – é parte de um processo que nem mesmo Davi Barros, o executor da falência, e os fundamentalistas do metodismo conhecem em profundidade. Essa liquidação faz parte de um momento universal de anulação e de extermínio de valores. Os fanáticos do pentecostalismo metodista têm, como modelo, não uma visão cristã de mundo, no sentido de um cristianismo realizador do ser humano, plenificante. O sentido é o da mentalidade neocapitalista oportunística, feito de farsas, de mentiras, do qual Edir Macedo e a sua seita, a dita Igreja Universal, são referenciais exemplares. E que, politicamente, esperneia em partidos ditos sociais-democratas.

A Igreja Metodista é, historicamente, uma das mais sérias e respeitadas denominações cristãs em dimensão mundial. Como quase todas as igrejas ditas protestantes, nascidas da Reforma, a Metodista sofre as dores do parto de exercícios democráticos, nos quais as decisões majoritárias definem posicionamentos e atitudes. Mas, por serem majoritárias, as decisões ditas democráticas nem por isso se podem dizer sempre acertadas. Quando a opção majoritária se faz pelo fanatismo ou por preconceitos declarados, há uma exclusão implícita condenável em sua própria origem.

 

A reflexão é para dizer que, quando a nova cúpula majoritária da Igreja Metodista, se definiu pelo rompimento com o Ecumenismo, na negativa de participação com a Igreja Católica, este velho jornalista – e tomo Almir Maia e Gustavo Alvim como testemunhas – começou a temer pelo que viria a acontecer com a Unimep. Pois, sendo uma universidade confessional, era óbvio que a nova cúpula desse metodismos fanático haveria de influir na orientação da Universidade. E a Unimep nasceu e viveu como um formidável dínamo gerador e animador de pluralismos, de convivência com o diferente, de respeito pelo outro, especialmente o outro das minorias. A Unimep é, no Brasil, um dos símbolos do que o sonho humanístico pode realizar e conseguir. E isso aconteceu em Piracicaba.

Davi Barros não teve e não tem qualquer qualificação para ser reitor dessa Unimep universalista, plural, generosa e honesta em seu humanismo genético. Davi Barros é dogmático religioso, sempre confuso e complicado. Ele nunca teve brilho intelectual próprio, ficando à sombra dos que os protegeram, pois Davi Barros precisa ser protegido, como aqueles soldados que vão para o campo de batalha sem saber qual é a guerra. Esses soldados, fanatizados, precisam ser protegidos por seus capitães, generais. Davi Barros, soldado raso, foi transformado em general, repetindo aquele exército de Brancaleone de trapalhadas sem fim. Sem estar protegido, era previsível sua derrota, pois a Unimep e a verdadeira Igreja Metodista não são moinhos de vento que delírios episódicos consigam transformar em dragões de verdade.

Como velho jornalista, conhecedor dessa história, tentei dar, a Davi Barros, um sinal de boa vontade ao acentuar a sua melhor qualidade para comandar a Unimep: ter sido vendedor de pamonhas, na infância, em Piracicaba. Ser pamonheiro de Piracicaba, pensei eu, seria saber zelar por valores, viver a sabedoria do umbigo, entender a Unimep como parte de nossas raízes, que Martha Watts e os metodistas entenderam e viveram. Mas Davi Barros, na primeira oportunidade que teve, confessou: em São Bernardo, ele era feliz e não sabia. E isso explica, freudianamente, tudo: aqui, ele foi, é infeliz. E tentou se vingar. E não conseguiu. .

O fracasso e a derrota de Davi Barros não resistem a esta Primavera.

Deixe uma resposta