Frio e arco-da-velha

picture (46)Ia escrever sobre algo que remete aos tempos do arco-da-velha quando, ainda outra vez, me interrompi, novamente intrigado: arco-da-velha, o que é mesmo? Que se trata de velharia, isso lá eu sei. Mas e o arco, por quê? Para quê?

Certa vez, li uma explicação sem graça, forçada: o arco-da-velha nasce do arco íris. Ora, arco-íris é invenção antiga, milenar, uma criação poética. Para os gregos, a deusa Íris servia de correio, transmitindo mensagens. Com um arco, fazia riscos coloridos nos céus, o arco de Íris. Para os budistas, é a escada de sete cores que Buda emprestou para ligar o céu e a terra. Comparar essas belezas com arco-da-velha, isso é querer enfeiar a vida. Tão feio quanto os gays quererem apoderar-se de tal símbolo, pretensiosos.

Mais feio ainda, descobri no velho Raimundo Magalhães Jr.: para ele o arco- da- velha originou-se do arco do “bere”. Mas e “bere”, o que é isso? Quebrei a cabeça e aprendi: é o verbo “bere”, beber em italiano. Vejam, pois, o ridículo: a velhinha bebia através do arco. Então, arrepiei: bere é, também, dança fúnebre de antigos nigerianos. Velha idiota.

Os nossos irmãozinhos de Portugal deram um nó na questão. Para eles, a chuva é uma velha de pernas compridas. E, com esquisita imaginação, explicam: a velha tem um canudo – um arco de sete cores – com o qual bebe a água dos rios, e das fontes. Depois, ela seca a água e a transforma em chuva, não é admirável? Além disso, a velhinha portuguesa penteia-se e come pão mole no local onde o arco pousa. Há coisa mais idiota? E o pote de ouro, onde fica?

Continuo sem entender e me recuso a assemelhar o arco-da-velha ao arco-íris. Mas sei que há coisas do arco-da-velha. Velharias. Eu mesmo já me sinto do arco-da-velha, jurássico, dinossáurico. Há algum tempo, sonhei estar com uma bengala, sentado num banco de jardim, enrolado em cobertor, uma desgraçada manhã de frio. E era disso que eu ia escrever: do medo das pessoas, dos mil medos. No meu sonho de um homem jurássico, eu me via apavorado, a certeza alucinante, o medo terrível, meu medo maior: morrer de frio.

Ora, psicólogos dizem haver explicação para tudo. Pode ser e pode não ser. Mas não é verdade que tudo tenha explicação. Há coisas que se não explicam. Ou que, mesmo explicadas, não se entendem. Ou não se justificam. Já ouvi, por exemplo, mil explicações a respeito da existência da barata. Mas não entendo porque o mundo precisa de baratas. A não ser para enriquecer fabricante de inseticida, que, então, cria empregos, que paga impostos, essas coisas. A economia sempre cresce com a desgraça alheia. Baratas são uma desgraça. Acho.

Por ser algo irracional, meu medo de frio não se explica. Ou, então, explica-se pela irracionalidade. A uma simples brisa de Primavera, começo a tremelicar. A uma lufada de Outono, tirito. No Inverno, tenho calafrios, tremores, bater de dentes, enregelo, encolho, engruvinho. A vida perde a graça, o mundo torna-se hostil. E entendo tudo o que escritores geniais ou medíocres escreveram sobre esse gélido pavor: que retalha a carne, que corta como navalha, que penetra até a medula dos ossos. E que a alma se enregela como a terra, como o mármore, como o sorvete, como a pedra. Isso não é vida.

São coisas do arco-da-velha: tudo o que é ruim nasce no frio. Vejam Jack, o Estripador; Frankenstein, Drácula, o Abominável Homem das Neves. Já perceberam que os partidos políticos escolhem candidatos em tempo de frio? Pois é. Bom dia.

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