Futebol e jogo sujo

Jogo sujoQuando se fala em futebol há que, pelo menos, se referir ao genial Huizinga. Para ele, no extraordinário estudo “Homo Ludens” – em que mostra como os jogos acompanham a vida da humanidade desde os primórdios – está, no futebol, uma das mais notáveis invenções humanas lúdicas. Seria o esporte coletivo perfeito, onde arte, técnica, estratégia, tática, preparo atlético, talento se reúnem de forma fascinante. Um esporte e um jogo que, além do mais, despertam paixões as mais primitivas do ser humano. Por futebol, mata-se e morre-se. E rouba-se também.

No gramado, o futebol, durante o jogo, tem uma ética subordinada a regras muitas das quais têm sido pétreas. As infrações são punidas ou deveriam ser. O árbitro é o juiz supremo, que decide em primeira e em última instância. Torcedores ululam, gritam, escabelam-se, brigam, ofendem-se, agridem-se, levados por uma paixão quase impossível de se explicar. A força do futebol é tanta que, na América Central, até uma guerra entre dois países do Caribe foi interrompida para que os povos litigantes pudessem ver Pelé jogar.

No entanto, a malandragem e até mesmo a desonestidade parecem estar na gênese do futebol quando se disputam campeonatos valendo títulos. É um vale-tudo conhecido pelo menos nos últimos 60 anos. Não se trata mais de disputar, de um jogo onde vencer ou perder é contingência. Não. O que importa é a vitória e, mais do que ela, os títulos disputados. Por isso, quando se lamenta que as torcidas do São Paulo F.C. e do Palmeiras tenham pedido a seus times que perdessem para não favorecer o rival mais odiado, o Corinthians, muitos tentaram falar em honra e desonra, em ética, em jogo sujo. Mas é mesmo jogo sujo. Tem sido assim. O cavalheirismo e a decência vão-se tornando, também no futebol, artigos de luxo, raridades.

Ora, sou apaixonado por futebol desde a meninice. E os céus me deram o privilégio de poder acompanhar,também no futebol, o que aconteceu nestes últimos 60 anos. Lembro-me da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil literalmente entrou em depressão pela derrota. E me lembro do privilégio de ter visto aquele que comentaristas, depois, disseram ter sido o primeiro exemplo de cavalheirismo e solidariedade, algo até então inédito. Foi num jogo Corinthians e Palmeiras no Pacaembu, rivais ferozes. O corintiano Luizinho, um malabarista, caiu no campo, mostrando contusão. A bola estava nos pés de um artista, um dos grandes craques do Brasil, o palmeirense Jair da Rosa Pinto, o Coice de Mula, o Jajá. Ao ver o adversário caído, Jair – que seria ainda maior no Santos F.C. – jogou a bola para a lateral. Ninguém, nos primeiros instantes, entendeu. Logo em seguida, porém, o Pacaembu explodiu em aplausos.

Entregar jogo e comprar jogo têm sido, infelizmente, parte do futebol mundial, como se houvesse uma ética própria acima de tudo o que se conhece de decente na ordem moral. Tivemos o caso da Argentina, campeã do Mundo, graças a uma negociação com o Peru, entre juntas militares de ambos os países, para o selecionado andino “entregar” o jogo e perder por goleada. Em Piracicaba, vimos, na década de 1950, o escândalo da corrupção que atingiu dois dos mais queridos jogadores do XV, o goleiro Ari e o notável volante Pedro Cardoso. O Palmeiras, para vencer o XV, conseguiu suborná-los. O choque foi imenso, especialmente por Cardoso ser um dos mais amados craques quinzistas. E ele próprio, arrependido mas ferido moralmente, reconheceu seu erro.

O XV escapou da segunda divisão por duas vezes, em anos distantes, por negociações entre as diretorias. A Portuguesa Desportos desistiu de voltar para o segundo tempo, alegando falta de segurança para seus jogadores na Rua Regente Feijó, e o XV ganhou os pontos, escapando da degola. Depois, no Barão de Serra Negra, Luciano Guidotti atiçou a torcida para invadir o gramado num jogo contra a Portuguesa Santista, vital para o XV não cair. E os santistas também desistiram de jogar. E o XV não caiu.

Assisti – e acabei sendo participante – à entrega oficial do jogo Palmeiras e Corinthians na década de 1970. Fazia vinte anos que o Corinthians não era campeão, ano de 1974. O Governador Paulo Egídio, com quem eu mantinha relações de amizade, me convocou a estar no Palácio Bandeirantes levando o presidente do XV, Romeu Ítalo Rípoli. Este era um crítico severa das arbitragens, da roubalheira no futebol. Ao chegarmos, Paulo Egídio estava com o presidente da Federação, Nabi Abi Cheddid. E explicou, querendo o silêncio de Rípoli, pois poderia ser um escândalo nacional: a vitória do Corinthians era considerada, pelo governo Geisel, questão de segurança nacional. A diretoria do Palmeiras entendera isso e aceitara entregar o jogo, deixando o Corinthians ser campeão. Rípoli esbravejou, xingou (V. RIPOLIANAS) mas aceitou. Nada adiantou. Pois o Corinthians não jogou nada, Rivelino tremeu e um jogadorzinho do Palmeiras, um certo Ronaldo, deu um só chute a gol e a bola entrou.

Só não me perdoo de uma só coisa: sabendo de tanta sujeira do futebol, como é que posso ainda ter tanta paixão pelo Corinthians? Que os corintianos deem o máximo de dinheiro para os jogadores do Guarani vencerem o Fluminense, uai. Guerra é guerra. Sujeira é sujeira. Para se ver, que a paixão não tem moral alguma. Bom dia.

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