Garçons e cabeleireiros

picture (43)A revitalização do Bar Brahma, em São Paulo, é um dos testemunhos mais vivos e exemplares de quanto e de como os velhos centros urbanos precisam ser recuperados. Bares, restaurantes, cafés, pontos de encontro, eis a vibração e a humanização de uma cidade em seu centro nervoso. No Rio de Janeiro, o velho Lamas, a Confeitaria Colombo, o Café Nice, entre outros, são pontos obrigatórios de visitação e de turismo.

O centro de Piracicaba, desgraçadamente, já morreu, pouco importando se, agora, abriram as ruas para automóveis passarem. Uma cidade não se faz com avenidas, rotatórias e pontes, mas com sua gente, com seu povo. E o povo escolhe, por si só, os lugares onde a vida trepida, onde sonhos e protestos se realizam. O centro de Piracicaba começou a morrer desde quando, fechada a praça de maneira inconseqüente, foram morrendo bares e restaurantes que reuniam a boêmia, os intelectuais, famílias, estudantes. Alguns deles, fundamentais e inesquecíveis: Brasserie, Giocondo (depois com nome Alvorada), Ernani´s, Leiteria Brasileira, o bar do Caio, o do Tanaka, a Tabacaria Tupã, a sorveteria Paris, o Bule. Não adianta mais chorar sobre o leite derramado. A praça já não é mais do povo, ainda que o céu seja do condor.

Antes, podia-se dizer que vir a Piracicaba e não tomar chope na Brasserie era o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. Se aquele quarteirão contasse, toda a grande história de Piracicaba seria repetida com detalhes através das lembranças de homens e mulheres que viram o mundo rodar e a vida correr a partir daqueles bancos de jardim e daqueles bares e restaurantes. Lembro-me de certa vez, há alguns anos, quando, no auge dos meus exageros passionais, berrei para sensibilizar o falecido Zica Escobar, na sua luta para não fechar a Brasserie: “ Não há Roma sem o Coliseu, Paris sem o Arco do Triunfo! Nem Piracicaba sem a Brasserie!”

Na verdade, o que eu quero são mágoas e lamentos. Pois um dos meus grandes sonhos ainda é o de escrever um livro de depoimentos das coisas vistas e ouvidas por garçons, pelos velhos garçons. Ora, há ainda alguns já antigos na profissão. Mas quantos já não se foram, carregando segredos, informações, preciosidades que se tornariam históricas se reveladas? Cadê o Carlão, do velho Giocondo e de tantos outros bares, o Carão lúcido, sereno, atento, silencioso, discreto? Onde exisitiu um bar, nele Carlão trabalhou. Do mais chique ao botequim. E por que essa tristeza, havereis, vós, de perguntar-me? Responder-vos-ei, pois.

É simples: nenhuma história humana será fielmente contada sem o testemunho de garçons, barbeiros, cabeleireiros. Podem reparar: todos eles fazem cara de sonsos. Fingem não ouvir. E não ver. Pergunte, minha senhora, à sua cabeleireira, qual a última fofoca do salão. Horrorizada, ela dirá: “Fofoca? Sei lá. Fico aqui trabalhando, distraída, não ouço nada. Pensei até em ir ao médico, acho que estou meio surda.” Não acredite.

Garçom, além de surdo, finge-se de cego. Marido e mulher podem se estapear no canto do restaurante – o garçom, servindo-os, não ouve e não vê. No dia seguinte, o mesmo marido pede um chope para matar a mágoa: “Você viu, ontem, aquela bruaca, o que fez comigo?” O garçom: “Ontem? Mas não vi o senhor ontem…” Gente fina. Confiável.

Ora, levei uns dez anos para convencer o Carlão a, um dia, conversarmos sobre segredos de mesa de bar: casamentos rompidos, políticos corrompendo e sendo corrompidos, amores iniciando-se. Enfim, relembrar aquilo que Nelson Rodrigues dizia: “a vida como ela é.” Carlão concordou. Mas morreu antes da conversa vital. É uma tristeza ver a vida passando com tanta falta de sal e sabor. Antes, barbearias e farmácias até tinham bancos para os clientes e amigos sentarem-se para conversar. Drogarias são outra coisa.

Ainda, porém, aposto e confio: cabeleireiros e garçons são os guardiães dos segredos das histórias maravilhosas do cotidiano que ainda sobraram, armazém de escritores. Se garçons e cabeleireiros contarem o que sabem, jornalista perde o emprego. Bom dia.

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