Gays e intervalo

picture (23)Nos últimos tempos, venho lembrando-me do irresistível MMM, Movimento Machista Mineiro. Que, com sua picardia, provocou todo o Brasil. Se resistiu ao tempo, se algo lhe restou da heróica resistência, os machistas mineiros devem estar cada vez mais em polvorosa. Pois até pelas graciosas Minas Gerais acontecem as passeatas “gays”, para macho algum colocar defeito. Muito menos macho mineiro.

Por sua vez, o “cabra macho” nordestino levou um golpe quase mortal, faz alguns anos. “O sertanejo, antes de tudo, um forte”, o próprio Euclydes já alertara pudesse ser enganosa sua aparência de homem “desgracioso, desengonçado, torto, permanentemente fatigado”. Uma paixão homossexual entre “cabras da peste” deve ter reativado invocações a Antônio Conselheiro, Padim Ciço, Lampião e o antigo cangaço. Foi quando, em Aracaju – terra de macho de peixeira na cinta – um ex-presidiário, Jefferson, reivindicou o direito de visitas íntimas ao amante ainda preso, o travesti Robson Roberto, que também atende por Shirley.

Cá, entre nós: a gente gay poderia assossegar-se um pouco, não? Com Bush urrando em seus últimos estertores, com o Papa Bento XVI ampliando a apertura de cerco feita por João Paulo II, com a multiplicação de seitas, com o “franchising” da fé, começa a precisar-se de uma pausa para respirar. Cada coisa por vez. Pois, se já está difícil diferenciar homem de mulher, a confusão aumenta acrescendo-se o neutro. Ou o ambíguo.

A história não começa com os gays desta geração. A sexualidade desafia a compreensão humana desde as origens. E não são novas as reações a movimentos homossexuais, casamentos gays, coisas que tais. Há labirintos e raízes profundas, questões que põem em jogo valores fundantes de civilizações, no mundo ocidental e grande parte do oriental. A complexidade é maior do que a repetitiva alegação de preconceitos ou a simplificação do discurso em torno de “preferências” sexuais. Mesmo neste terreno, há mais sombras do que alcança a imaginação humana. Freud ousou abrir a cortina. E o relatório famoso, Kinsey, revelou coisas do arco da velha. Que devem ter-se ampliado. Sexo e estômago movimentam oceanos de dinheiro.

Defender uniões apenas por preferências sexuais é inconsistente. Trata-se de terreno minado. Fosse assim, seria preciso lembrar haver gente que prefere crianças. De outros, a preferência é por adolescentes. Tem quem goste de amar bicho. Ou bonecos infláveis. Há quem goste de estuprar. Ou de cadáveres. São, pois, muitas as tais “preferências” : pedofilia, efebofilia, necrofilia, zoofilia. E mil outras, incluindo taras. É complicado. Só para se tentar explicar Sade e Masoch, há bibliotecas inteiras. O ser humano é fonte inesgotável do que não se entende. Sem regras, vale tudo.

Viver é, de certa forma, estar diante de portas. Se fechadas, abrem-se; abertas, escancaram-se; escancaradas fecham-se novamente. Talvez – por ter-se escancarado – o mundo comece a fechar-se outra vez. Até no processo de globalização, o homem elege, primeiro, sua caverna: mora-se nela, não no mundo. O ser humano, mesmo quando progressista, é conservador: o progresso não dispensa o já conquistado. Progride-se conservando-se. Revolução é outra coisa.

Há questões mais graves e urgentes. Os tempos precisam de fôlego. Que as pessoas vivam sua privacidade, mas poupem outras de espalhafatos. Pois não é verdade possa, cada um, fazer o que bem deseja apenas pelo fato de desejar fazê-lo. Na dimensão pessoal, interior, até pode ser. Na social, não. Liberdade é construção a dois, com o outro; e com os outros, em sociedade. Logo, há regras. Que devem ser comuns e satisfatórias para todos. Bom dia.

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