Gente burra, filho macho, cara de tacho

picture (14)Quase comecei a escrever sobre a saudade que tenho de mulher burra. Pois, penso eu, quando as burras existiam, o mundo era melhor. Atualmente, apenas existe mulher inteligente, competente, atuante, assertiva. E o mundo está ficando pior. E mais chato. Vejam bem: as casas não cheiram mais a café feito na hora, a arroz com feijão, a bife acebolado, a ovo frito.

Nos gloriosos tempos da mulher burra, o homem não via a hora de voltar para casa, após o dia estafante, o massacre nas ruas e no trabalho. Lá estava ela, a burrinha, à sua espera, toda cheirosinha, calminha, a rainha do lar, aguardando o maridinho, recebendo-o com abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Agora, os dois, marido e mulher, chegam quase juntos, não há ninguém para recebê-los, ambos levando irritações, raivas, cansaços para criar novas irritações, raivas e cansaços. E que venham a pizza ou os sanduíches do “trailler” mais próximo.

Pensei em escrever dessa saudade da mulher burra, da família burra, de marido e mulher burros. Mas me lembrei de ser dia em que, pertinho de onde moro, se monta uma feira livre bem no meio da tarde, alongando-se pela noite. Mais do que feira, eu deveria dizer – até para lembrar de Lima Barreto, que amou o povo – ser feira e mafuá. Vende-se de tudo, homens jogam baralho e tomam cerveja em mesas próximas, crianças brincam, mulheres conversam, namorados namoram. De quando em quando, vou lá para comer pastéis. E peço três: de queijo, de carne, de palmito.

Pessoas contam coisas, reclamam, fofocam. Sabe-se de tudo e de todos, entre gritos e sussurros. Há algum tempo, na confusão de vozes, ouvi a mulher idosa dizer à jovenzinha grávida: “Minha filha, Deus lhe dê um filho macho, com cara de tacho, furado embaixo.” Emocionei-me. Há quanto tempo não ouvia aquela maneira tão antiga de se desejar à mulher um parto feliz?

A moça entendeu. Pois sorriu e acarinhou a barriga orgulhosamente empinada. E a mulher idosa foi comprar verduras, enquanto, em mim, foram-se-me atropelando as coisas, sei lá se na razão, se nas funduras da alma. Saboreei os pastéis e lembrei-me de quando, lambuzando-nos com os das feiras antigas, falávamos: “Pastéis como esses, só quando Deus for servido.” Ou seja, nunca mais.

Ora, houve tempo em que colecionei frases e expressões populares. Havia preciosidades, jóias que se perderam com as transformações da linguagem, de hábitos, de costumes. A maneira de ser do povo, em cada época, vai-se revelando também pelas expressões de linguagem, pelas locuções. Se déssemos mais atenção às quantas vezes o povo, no cotidiano, se refere a Deus, ficaríamos, talvez, surpresos: “Deus ajude, queira Deus, mercê de Deus, graças a Deus, Deus me livre, Deus me perdoe, Deus lhe pague, Deus é grande.” – e quanto mais?

Forçando a memória, recupero expressões que descubro nunca mais tê-las ouvido: “Deus o ouça e o diabo seja surdo”, quando alguém nos desejava coisas boas; “Deus lhe dê uma boa hora.”, também para augurar parto feliz; ” Deus esteja nesta casa e o diabo na casa dos frades.”, como os ainda mais antigos, jocosamente, saudavam os donos da casa. E, para quem duvida de que se falava assim, garanto ser ” tão certo quando Deus estar no céu.”

E o que família burra, mulher burra têm a ver com isso? Tem quase tudo. Pois o mundo, cada vez mais, está nas mãos da mulher. Quanto mais ela agir como homem, mais o mundo continuará igual. E não terá mais conserto. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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