Gente medieval

MedievalPois é. Toda essa gente é moderna, pós-moderna, sei lá se pós-pós-moderna. Obama é. Bibi lá de Israel, também. Igualmente, governantes do Irã. O próprio Lula. E, no entanto, diante de tantas tragédias sociais e humanas que acontecem em nosso tempo e neste espaço terreno, é a Idade Média que leva a fama. E é a gente medieval tida como retrógrada, atrasada, do tempo de trevas.

Venho pensando na monumentalidade de uma época que obteve um nome, mas que não existe: a Idade Média. E penso na gente medieval. Confesso, até há poucos anos, ter sérios preconceitos, mas era ignorância minha. Agora, tenho fascínio por estudar aquele período da humanidade, até mesmo ansiedade, acho que desejo. Até mesmo quando me dou conta das fogueiras da Inquisição – tão temidas e desprezíveis hoje – já não mais consigo ver se quem as acende tem o nome de Savonarola, se de Hitler, se de Bush ou Obama. Há momentos em que as bruxas de lá parecem melhores do que as de cá.

Na verdade, perdi toda a vergonha e perdi o medo de meus fascínio por aquela gente medieval, do Medievo, de séculos que já se foram logo após o advento de Cristo, dos séculos III ao XV, digamos. O terrível é ver a ação internacional dos Estados Unidos e da Inglaterra, em especial, no Século XXI. Pois ela não teria existido na Idade Média. Talvez, pudesse ter vivido tempos de Nero ou tempos de caverna. Na Idade Média, não. E, então, vejo-me ansiando pela redescoberta daquela gente medieval, de onde nos chegam, ainda agora, todos os sussurros.

Ando preferindo essa minha gente medieval, esses atrasados do Medievo, aos arrogantes que, diante de horrores atuais, ainda falam em tempo de sombras e de trevas. Numa noite angustiada, invoco essa minha gente e, então, eis que me as idades médias – uma bela, outra vista como das Trevas por humanistas e iluministas – me parecem ao mesmo tempo próximas e longínquas. Livros que leio me chegaram às mãos a partir daquela bela Idade Média; roupas, calça e camisa substituindo a toga antiga; o calendário; reações diante de epidemias, como a que temos diante da AIDS, da gripe suína, verdadeiros reflexos do medo da lepra e da peste e da luta para debelá-las.

Há, no mundo todo, uma tendência cada vez mais profunda para o entendimento do que foi essa Idade Média de que nos afastamos, tão diferente do que somos em ciência e tecnologia, mas ainda tão próxima em hábitos, crenças, costumes, referências. Como não reconhecer o peso do judeu-cristianismo mesmo agora, nas sociedades e nações leigas? A Europa não está se debatendo para coibir o véu das mulheres muçulmanas, herança da Idade Medida? E não há multidões, em todos os quadrantes, ainda acreditando no Além, em céu e inferno, anjos e demônios, idéias e conceitos tão poderosos no Medievo?

Aqui entre nós: os condomínios, o que são, senão uma nova versão das cidades medievais cercadas de muralhas e de fossos? E as mansões imensas, ostentatórias, não seriam versões novas – modernas, pós-modernas, pós-pós-modernas – de castelos e catedrais antes talhados em pedras? Aliás, perfumes e colônias mais refinados, hoje, pertencem à Occitane, não é mesmo? Pois a Occitânia é a velha região provençal no Medievo.

Enfim: para tentar entender alguma coisa do que está acontecendo em tempos tão confusos e pretensiosos, tirei das estantes os meus George Duby e Le Goff, pelo menos eles. Há coisas que preciso relembrar. Até mesmo para não me esquecer de quem sou. Pois o homem é o que foram os seus ancestrais. Bom dia.

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