Guerra e ludopédio

Ronaldo 2Está aberta, pois, a temporada mundial do futebol, com os jogadores escolhidos, de todos os países, já reunidos para o que o Dunga chama de guerra ou de batalha. Com Dunga, a seleção brasileira se transformou num batalhão de guerreiros – os brahmeiros – que irão derramar sangue, suor e lágrimas nos campos de combate da África do Sul. No campo, as batalhas; nas arquibancadas, um povo ululante pedindo sangue e a cabeça do inimigo. Do lado de fora, bilhões de dólares em jogo, multinacionais também digladiando-se em busca de lucro, de vantagens, de divulgação de marcas. E os guerreiros – antigamente chamados de jogadores de futebol ou de atletas – à espera de suas coroas de louros ou de cheques polpudos a lhes rechearem ainda mais as robustas contas bancárias.

O chamado esporte bretão, pois nascido na Inglaterra, espalhou-se pelo mundo com o nome de football, relação entre pé e bola, um jogo. No Brasil, a palavra não apenas se aportuguesou, tornando-se o nosso futebol, como houve intelectuais nacionalistas que tentaram dar-lhe um nome genuinamente brasileiro. Foi quando surgiu o ludopédio. Logo, futebol e ludopédio são palavras irmãs. E ludopédio, diferentemente da guerra e dos guerreiros do Dunga, significa jogo com os pés, o lúdico que se manifesta numa arte em que os pés e pernas dos atletas estão em primeiro plano e, portanto, dependendo do talento.

Dunga, ao convocar guerreiros, preparou-se para a guerra, um futebol de combate, esquecendo-se do chamado futebol arte, do jogo, do lúdico, das filigranas, dribles, fintas, malabarismos que, em todos os tempos, fizeram as delícias das plateias, transformando o jogador brasileiro no grande artista desse esporte-jogo. Para Dunga, CBF, empresários de jogadores, clubes, o que está em jogo é a valorização dos atletas e a realização de grandes negócios. Por isso, o objetivo é o mesmo que, certa vez, Fernando Collor anunciou como seu propósito para o Brasil: “vencer ou vencer”.

Mas será isso, mesmo, que interessa aos apaixonados torcedores brasileiros, para quem a seleção brasileira está muito mais próxima de uma orquestra ou de um corpo de bailarinos do que um batalhão de guerreiros? É óbvio que, mesmo com um time de guerreiros, queremos que o Brasil se torne campeão. Mas, convenhamos, será, se acontecer, uma conquista sem graça, por seu pragmatismo, utilitarismo e absoluta exclusão de arte, de picardia, de alegria de jogar. No futebol, vencer com grosseria traz a euforia apenas do momento, com um sentimento quase de vergonha como, por exemplo, foi aquele gol de Maradona com a mão, uma infração que manchou a conquista Argentina.

Ninguém se esquece de quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo de 1950 em pleno Maracanã, quando a seleção empolgava o mundo com seu futebol artístico, clássico, envolvente, maravilhoso, embasbacando a todos com as criações de Bauer, Zizinho, Ademir de Menezes, Jair da Rosa Pinto. Era um corpo de balé, uma orquestra sinfônica. O lamento daquela perda existe até hoje, pois foi a derrota da beleza, do encantamento. O mesmo aconteceu em 1982, quando perdemos com arte, uma seleção de virtuoses, o jogo por música, alegre e realmente lúdico, que Falcão, Zico, Sócrates apresentaram ao mundo. Perdemos com sabor de vitória. Em 2002, ganhamos, com sabor de derrota, o futebol pragmático, feio, mais feito de obediência tática do que com arte criativa.

Há jogadores que exercitam o ludopédio e outros que jogam para o futebol-empresa. Por isso, o clamor popular, a indignação, a inconformação dos brasileiros quando, vendo as molecagens maravilhosas dos “Meninos da Vila”, amargam a tristeza de constatar que Dunga, para vencer, escolheu o futebol triste, prático, pragmático. Com um agravante: muitos dos jogadores da seleção nunca foram vistos pelo público brasileiro, um grupo sem afinidades, sem empatia, como se, para nos representar na Copa do Mundo, estivéssemos com uma legião estrangeira. Michel Bastos, quem é mesmo?

O Brasil sabe que ficaria mais feliz perdendo com os malabarismos de Paulo Henrique Ganso e Neimar, do que vencendo com as armaduras, fuzis e lanças de um Júlio Batista. O brasileiro ama o ludopédio, o futebol lúdico. Dunga arma seus guerreiros para um campo de batalha. Torceremos todos a favor. Mas sem graça. Vencer ou vencer nada tem a ver com a essência lúdica e apaixonante do jogo. Bom dia.

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