Heróis e heroínas anônimos

Confesso continuar numa fase de perplexidade. O que me espanta não são as mudanças, pois sou da geração que rompeu tabus, que venceu preconceitos, que viveu “anos dourados” e “anos de chumbo”. Mudanças acontecem, são necessárias e, quase sempre, chegam para melhorar o que já era bom, não para piorar o que estava ruim. A perplexidade é perceber que o ruim se aperfeiçoa, que o péssimo se impõe, que o equivocado se transforma em certeza.

Estamos, sim, de um mundo que acabou, de uma civilização que entrou em pane. A devastação é crescente, percebo-a e, pior que tudo, entendo-a. Mas, se a entendo racionalmente, não consigo compreendê-la intelectualmente. Pois se a morte é inevitável, a doença pode ser curada. E estamos morrendo, como civilização, por doenças não ou mal curadas. Fomos péssimos analistas e erramos nos diagnósticos.

Tudo o que é finito entra em declínio, que é próprio da vida. Mas não se pode permitir que – como fazem os vendavais – tudo seja levado pela violência dos tempos ou pela incompetência de nós mesmos. O declínio de uma sociedade é o estado de queda da existência humana ao nível da banalidade cotidiana. A existência se alheia de si mesma, escondendo a realidade própria que, nesse caso, é mesmo a morte. A decadência leva a isso que estamos presenciando: um modo de vida impessoal, que se caracteriza pelas banalidades, pela tagarelice, pela mediocridade, pelo culto ao desnecessário, pelos equívocos.

Corto-me em minha própria carne quando aponto o dedo aos poderosos veículos de comunicação, propagadores e difusores desse declínio, dessa decadência, dessa degeneração. Houve destaques imensos à disputa de Miss Bumbum, aos que encomendaram os automóveis mais caros ainda que impedidos de trafegar nos congestionamentos, aos músculos dos rapazes e às pernas e bustos das moças. Revistas especializam-se em promover futilidades, em eleger as mais belas, os mais empreendedores, os mais elegantes – todos eles pertencentes a uma mesma casta, pois o Brasil voltou, como na colônia, a ser um país de castas. É a apologia da inutilidade, do supérfluo, muitas vezes do desprezível.

Elegem-se heróis da noite para o dia, substituindo-os no dia seguinte. A juventude não tem outros referenciais que não os de jogadores de futebol e de modelos pagos com salários milionários. A importância que se dá ao consumidor faz desaparecer o valor próprio do cidadão. Consumir é mais importante do que ser cidadão, este que é a alma e o coração de um país, de uma cidade.

Os verdadeiros heróis e heroínas brasileiros são anônimos e os meios de comunicação os ignoram. São professores mal pagos, professorinhas esquecidas, operários de mãos calejadas, enfermeiras generosas e dedicadas, donas de casa que mantêm o alicerce familiar, mães e pais que sabem amar com autoridade e desapego. Podemos ficar sem jogos de futebol, sem desfiles de moda, sem shows de artistas – mas não sobreviveremos sem o lixeiro, sem o padeiro, sem o verdureiro, sem o agricultor, sem o policial honesto.

Tais reflexões eu as faço – até mesmo como revisão de mim mesmo – após problemas de saúde que me levaram a algumas internações seguidas. Naqueles dias de hospital, pude ver, sentir, perceber, valorizar a dedicação, a responsabilidade, o sentido de vocação fraterna e humana de médicos, enfermeiros, copeiros, faxineiras. Comecei a me adaptar a um mundo diferente de tudo isso que está aqui fora. A humanidade verdadeira estava lá: homens e mulheres que, acima de tudo, são servidores do próximo. Sem honrarias, sem serem capas de revista, sem títulos pomposos. A humanidade desses heróis anônimos me contagiou. E me despertou para a verdadeira lição que nos tem faltado nestes tempos de perplexidade: há que se retornar, urgentemente, ao humanismo fraterno, sinônimo de humanidade. Não há outra saída. Todo o resto é simples anunciação da proximidade do precipício. Bom dia.

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