Hiroshima e Iraque

picture (20)Não me canso de contar de quando me veio a certeza de minha condição de homem subdesenvolvido, num país subdesenvolvido, de um continente subdesenvolvido. Foi no final dos 1970. Chegara, às livrarias, traduzido para o português, o livro “Rumo à Estação Finlândia”, do notável Edmond Wilson. Era uma das referências fundamentais para se entender a política internacional, a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética. Aguardei o livro com ansiedade. Só quando comecei a lê-lo, porém, vim a descobrir: tinha sido escrito há 30 anos. No Brasil, porém, era novidade… Tamanha foi a aflição que, a partir dali, dúvidas e ceticismo se avolumaram. Acho que nunca mais tive certeza de nada. Ou, pelo menos, apenas a certeza de ignorância pessoal.

Foi sensação semelhante a que senti, há uns cinco ou seis anos, lendo o livro “Hiroshima”, considerado a maior reportagem literária do Século XX. Escrito em 1946, foi revisto em 1985. Chegou ao Brasil no Século XXI. John Hersey – um dos pais do jornalismo-literário mundial – mostrou ao mundo relatos dolorosos da hecatombe de Hiroshima. Seis sobreviventes narraram a tragédia provocada pelo presidente Truman, o Bush daqueles anos. Os EUA tentaram, por todos os meios, evitar que o mundo soubesse do horror em Hiroshima. Era o terrorismo oficial, terrorismo de Estado, provocando a morte de dezenas de milhares de civis japoneses sob o pretexto de abreviar as misérias da guerra. A verdade apareceu e desmascarou a mentira do governo dos EUA: o Japão já estava prostrado, minado por bombardeios. A bomba atômica foi o golpe de misericórdia sobre um povo que se tornou cobaia para a cupidez imperialista estadunidense. Foi matança gratuita. Truman quis ganhar também o troféu da crueldade. Como Hitler. E, agora, Bush.

Não é função minha sugerir essa ou aquela leitura. Mesmo que o fosse, eu não o faria. Não o faço mais. Convenci-me de que cada pessoa deve procurar formar a sua consciência e o seu entendimento a partir de buscas pessoais. É tolice discutir, argumentar, discordar. A má informação – que nos vem a partir de meios de comunicação comprometidos, aqui e lá fora – é pior do que a falta dela. São as falsas e as meias verdades quase sempre mais perniciosas do que a mentira declarada. E os Estados Unidos e os grandes conglomerados internacionais continuam – numa escalada crescente – na tentativa de levar o mundo a viver meias-verdades. Para alguns, convém acreditar. Outros acreditam por ignorância. Alguns por preguiça. Cada um, pois, que viva com sua consciência. Também em sua própria cidade. Ou especialmente nela.

O livro “Hiroshima” mostra a crueldade infinita de apenas mais uma história de massacres, de genocídios. Ora, desde a dizimação de povos indígenas, de mexicanos, na América Central, a história da política externa dos Estados Unidos é de invasões e crueldades imperiais. Depois de Hiroshima, já vieram a Coréia, o Vietnã, Camboja, a África, o Oriente Médio, Afeganistão e, agora, Iraque, além da sanha pelo Irã – sempre em desrespeito à ONU. O pretexto de Bush são os atentados de 11 de setembro, a violência indesculpável. Mas são desculpas. Como as do lobo diante da inocência do cordeiro. Mr. Bush – o Hitler que veio do Texas e ficou – alegou, para iniciar invasões e matanças, que o Iraque também recusara as normas da ONU. Mas não move uma palha contra Israel, para quem a ONU não existe.

Aliás, Israel, o Estado e não o povo, não pode mais ter a comiseração mundial a partir apenas do Holocausto, como se aquele genocídio justificasse tudo pelo resto da vida. O horror ao Holocausto permanece vivo na alma da humanidade. Mas não pode servir de proteção a genocídios e violências cometidas por um Estado em nome do passado. Sim, Holocausto, nunca mais! Mas para todas as nações e povos.

É questão de pensar: quem esmaga tantos povos, qual escrúpulo teria em suas relações comerciais? A bomba de Hiroshima, hoje, tem outro nome: especulação do mercado. E a fome e a miséria causadas pelas ambições econômicas desenfreadas já mataram mais gente do que a explosão atômica. Com Bush, a história já provou que Hitler e Stalin não estão mais sozinhos. Bom dia.

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