Historias de corrupção

picture (3)Posso dizer que já vi, na minha vida, coisas do arco-da-veIha. E, por tê-Ias visto, é que vou reunindo condições para me tomar contador de histórias.

A maioria delas, posso dizê-Io, são absolutamente reais, mas parecem tão fantásticas, tão impossíveis de terem acontecido que muitos pensam tratar-se de ficção. O fato é que, de tanto ver, a gente vai-se acostumando a acreditar em tudo, a crer que tudo, por mais absurdo que possa parecer, é possível. Acredito em tudo.

E estou escrevendo essas coisas por causa do susto e do espanto do pessoal diante escândalos que sempre ocorreram, inclusive em Brasília. Ingenuidade ou hipocrisia de quem se espanta? Essas coisas ocorrem no País há muitos e muitos anos. Daria um livro o que eu vi, mas não pretendo escrevê-lo para não deprimir-me. Posso contar, porém, alguns casos.

Lembro-me de um, numa capital nordestina. Fiquei conhecendo um engenheiro do DNOCs, homem que se queixava de seu salário, algo por volta de 120 mil cruzeiros.

Pois bem. Um dia jantando com ele e sua mulher, a madama me convidou para, no final daquele ano, participar da inauguração da nova casa de praia que eles estavam terminando. O engenheiro quase engasgou, mas a mulher orgulhosa e falante, queria dizer daquela construção para férias e lazer: eram 48 apartamentos, na casa do homem que cuidava da seca do Nordeste.

De outra feita, eu estava no gabinete do ministro de Estado, na antesala, batendo papo com seu chefe-de-gabinete, um militar. Então, chega um telefonema da França. Tratava-se de uma mala, ‘”mala preta”. Era o seguinte: a mala tinha que ser embarcada apenas num determinado vôo,em determinado horário, não poderia ser em outro, pois haveria gente na alfândega já pronta para fechar os olhos à chegada da mala.

O militar ia falando, esquecido de que eu estava ao lado. Todo nervoso por causa da mala, suspirou quando o interlocutor, na França, entendeu o recado. Então, depois de desligar, ele se deu conta de que eu estava ali, ao seu lado. Coçou a cabeça. E eu, cinicamente, falei: “Não tem nada, não. Eu também peço que os meus milhões de dólares lá na Europa me sejam enviados por mala preta e horário especial, quando os meus chapas estão na alfândega…”

O militar, chefe de gabinete do Ministro, me olhou e, de repente, me viu como gente sua, cúmplice, comparsa, certamente membro da quadrilha. Daí, ele voltou a suspirar e falou: “Pois é… Mas isso dá um trabalho!”

Ainda bem que a corrupção dá algum trabalho, não é mesmo? Já pensou se até para ser corrupto esse pessoal não precisasse fazer esforço? Bom dia.

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