Horror das drogas em Piracicaba

HorrorA partir do verdadeiro estado de guerra em que se encontra o Rio de Janeiro, analistas voltaram a atentar para as causas históricas da vitória da bandidagem sobre a população carioca. E a causa principal se resume em poucas palavras: a leniência da população, do poder civil, das autoridades a partir dos 1970. O Rio aceitou conviver com os bandidos que, aos poucos, romperam o monopólio da força que pertence ao estado. A situação foi tão absurda que chefes do jogo do bicho, depois ligados ao tráfico, ocupavam as paginas dos principais jornais e revistas cariocas como personalidades importantes. Tornaram-se patrocinadores de clubes de futebol, de escolas de samba, benfeitores dos mais necessitados, verdadeiros ídolos da população mais sofrida e desassistida.

O início, na verdade, começou com Tenório Cavalcanti, líder político de Duques de Caxias, que imperou, nos 1950, na Baixada Fluminense, brandindo a sua metralhadora a que chamava de “Lurdinha”. Depois dele, surgiram Castor de Andrade e seu filho Paulinho, Raul Capitão, Emil Pinheiro, Aniz Abraão Davi, Antônio Turco, que espalharam seus tentáculos à política, aos meios policiais, contaminando até mesmo o Judiciário. Poderosas e influentes lideranças civis, políticos, foram absolutamente complacentes e até mesmo coniventes. Ou alguém poderá se esquecer de que uma das visitas mais acintosas a Castor de Andrade, quando na prisão, foi de seu amigo José Bonifácio Oliveira, o Boni, o então monarca do império da Globo?

Os 1970 não foram, apenas, “anos de chumbo”, mas verdadeiro inferno para quem ousou reagir e, em especial, no jornalismo de contestação e de resistência. Em Piracicaba, não foi diferente, como a confirmar o que dissera o notável jurista e político Pedro Aleixo: “Nas ditaduras, o perigo é o guarda da esquina.” Em nossa terra, delegados e investigadores de Polícia se transformaram nos algozes dos que tiveram coragem de enfrentá-los. E esse inferno se tornou mais cruel quando surgiu um investigador de Polícia de nome Lazinho, competente em sua atividade, mas cruel e sem escrúpulos, homem vinculado ao submundo do crime, das drogas, liderando-o pela truculência com que atemorizou até mesmo a própria Justiça. Lazinho se impôs a juízes e a delegados e a promotores, formando verdadeira quadrilha de investigadores em cumplicidade com alguns empresários e advogados.

Havia, então, poucos registros de tráfico de drogas, sabendo-se, porém, de sua existência em algumas das mais expressivas áreas da sociedade. Lazinho conseguiu transformar o que havia em uma organização. E passou a explorar, a chantagear, a extorquir. O principal centro de distribuição se tornou a zona do meretrício, ainda dominada por uma decadente e frágil Yvone Mansur, que fora a “rainha do lenocínio”. Prostitutas eram exploradas e tornaram-se parte do esquema. O DIÁRIO decidiu enfrentar a situação, sabendo dos riscos e dos perigos. Envaideço-me de ter sido acompanhado de um grupo de jovens verdadeiramente heroicos, corajosos, idealistas. Fomos à luta.

Piracicaba calou-se e ficaríamos sozinhos não fosse posição firme de um valente advogado, Marcos de Toledo Piza, que, mesmo contrariando parte de seus colegas, decidiu participar da luta por direitos humanos que estavam sendo barbaramente violados. Contamos com o apoio precioso da Igreja Católica, através da ação firme de D.Aníger Melilo, padre José Maria de Almeida, Frei Augusto Girotto, entre outros. Para se ter uma ideia, precisamos abrigar, em O DIÁRIO, diversas prostitutas que estavam sendo perseguidas por Lazinho, temeroso de que elas contassem o que sabiam. Elas dormiam nas bobinas de papel de jornal, recebíamos a colaboração de amigos que, tendo bares ou restaurantes, lhes enviavam alimento, aguardando que Marco Piza conseguisse proteção legal às mulheres.

Guardo, ainda hoje, em meus arquivos, depoimentos estarrecedores de torturas policiais, comandadas por Lazinho. Eram homens, mulheres, jovens que eram seviciados nos porões da Delegacia de Polícia, onde havia paus-de-arara e outros instrumentos de tortura. Políticos silenciavam, amedrontados e acovardados. Era preciso, como jornalistas, que fôssemos também investigadores, pesquisadores, protetores e homens de ação. Com Mário Dedini, consegui um avião, um Cessna, pilotado por Tito Bottene, grande ás da aviação, e me mandei a Brasília, com a cara e a coragem. Eu conhecia um general da reserva, dos tempos de João Goulart, um homem respeitado mas sem poderes. Levei-lhe todos os documentos que tinha, a repercussão que começara a ocorrer em alguns jornais paulistas. O general nada falou, nada prometeu. Pediu-me lhe deixasse as cópias. Foi menos de uma hora de conversa. Voltei a Piracicaba, dividindo o silêncio com Tito Bottene, entre decepcionado e derrotado. Duas semanas depois, homens da Polícia Federal, à paisana, apanharam Lazinho em flagrante na zona do meretrício distribuindo e comercializando drogas, ameaçando pessoas com seu grupo de investigadores.

Piracicaba, por suas lideranças, nada fez. As drogas já eram alto negócio. Alguns anos depois, saiu uma reportagem dolorosa na Tevê Globo, mostrando esta Noiva da Colina como a “Amsterdam Paulista”. E era manchete de jornais a morte, por overdose, de uma jovenzinha da alta sociedade piracicabana, no litoral paulista. Senti vergonha, mas aprendi não mais sentir. Vergonha deve ser sentimento de cúmplices e de omissos. E, ainda hoje, esse horror ainda existe em Piracicaba, o horror da conivência, da alienação, da covardia. Pontes não resolvem nossos terríveis problemas sociais. É mais fácil construir avenidas do que formar crianças, adolescentes e jovens. Bom dia.

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