A idade do lobo

Esse texto foi publicado em julho de 1988 no jornal impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

As duas senhoras foram à minha procura, assunto importante a tratar. O caseiro lhes disse que eu estava andando por aí, na manhã muito azul e de sol radiante. Elas são minhas vizinhas, mas somos vizinhos na vastidão de espaços. Então, ouvi a freada do automóvel. Encontraram-me saindo do mato à beira do lago, o meu cãozinho todo assanhado a meu lado.

Foram discretas, mas percebi que não entendiam minhas andanças. Conversamos o que tínhamos a conversar, elas se foram, continuei a andar, com a certeza, porém, de que elas não entenderam nada. À tardezinha, já anoitecendo, estava eu cortando o cabelo, a conversa distraída com esse colega de notícias, tão ou mais informado que um jornalista: o cabeleireiro. Então, surgiu uma senhora querendo um horário que o cabeleireiro não tinha.

Não consegui ver-lhe o rosto, pois nada enxergo sem óculos, mas ouvi-lhe a voz: mulher madura, personalidade extravazante. Sentou-se ao meu lado, começou a conversar, e lá fomos falando dos problemas da cidade e da vida. Então o cabeleireiro falou da “idade do lobo” e referia-se a mim, obviamente.

E a senhora se interessou pelo assunto, pois “idades do lobo” têm sempre um mistério, um ridículo qualquer. Mas posso dizer que é uma das mais belas idades da vida. Infelizmente, entende-se por idade do lobo aquela em que o homem vive de devorar conquistas amorosas, ridículas por si mesmo, pois o amor é algo muito mais rico e generoso do que simples aventuras.

Não, idade do lobo não é isso. É um momento fantástico na vida do homem, quando o ego pouco lhe representa. Deve ter sido chamada de idade do lobo porque se fareja a vida com outro feeling, come-se a vida com apetite voraz mas requintado.

A maturidade é um retorno à infância com olhos míopes de tanto que se viu e que se caminhou. Nada há a provar, para ninguém, nem à gente mesmo. Não há porque competir, porque a competição é tola, ainda que os capitalistas digam o contrário.

Não há porque ter mais coisas – pois todas elas estão aí, diante dos olhos, à disposição de quem lhes descubra a alma, pois as coisas têm alma. Plantas, animais, coisas e até nós temos alma, não é incrível? É a alma do mundo, a alma da vida. A idade do lobo é a liberdade das prisões morais, espirituais, culturais. São os instintos, os sentidos mais aguçados – o espírito permitindo que o sonho retorne e vença os esquemas racionais. E descobrir a fantástica importância do que não era importante. Bom dia.

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