Incerteza de rei

picture (2)Na vida humana, não há prato feito que não tenha seu custo. Há que se conquistá-lo, de ir-se fazendo-o a pouco e pouco, como numa construção. Uma colherzinha de feijão aqui, outra de arroz, uma porçãozinha de purê, um pedacinho de carne, um bocadinho de couve, pouquinho de torresmo, o ovo frito – eis o prato feito. E saboroso. Como diria o Lula: “quem vai com pressa come cru.” Faltaria acrescentar: “mas come requentado se devagar demais.”

O clima mundial é de prenúncios de guerra civil, de insubordinação. Há indícios também no Brasil. Alguém já disse da evidência de sinais de desobediência civil, quando a lei é rasgada. Índios matam brancos; brancos tentam exterminar índios; deflagra-se a rebelião generalizada no campo, a violência anunciada e com nome, Comando Vermelho, PCC e movimentos de invasões. Traficantes exercem governos paralelos nas cidades, com a cumplicidade de policiais. Bandidos estão mais bem armados do que a polícia. O Presidente da República, diante de invasões e greves, lança a responsabilidade sobre a injustiça secular, filosofando como numa discussão partidária ou discursando em palanque. O Presidente do Supremo Tribunal dá-se o direito de investir sobre o Executivo; escândalos políticos não têm fim em casas legislativas e, em especial, no Congresso Nacional. Nos presídios, rebeliões revelam a animalidade de presos contra presos, que se esquartejam, lançando pedaços de carne humana nas calçadas.

Já se ouvem vozes pedindo a presença do Exército nas ruas. E, pior ainda, pregações nostálgicas de um governo militar. Ora, se jornalistas e intelectuais vivem mais de suas incertezas do que das certezas, isso não significa sejamos indiferentes à história. Ou às lições dela. Se o Brasil insiste em não ter memória –como se fosse uma nação mental e psicologicamente indigente – passa a ser, cada vez mais, papel vital da imprensa insistir nessa linha contínua que liga presente ao passado, podendo delinear o futuro. Ai de quem, tendo assistido ao filme, se esqueceu do fim.

A baderna, hoje, não é igual a de ontem. Mas é baderna. Lula não é tão frágil quanto Goulart, mas vem demonstrando preocupante fragilidade, prisioneiro de acordos, de negociações partidárias não muito claras. O povo que votou no PT começa a ser governado pelo PMDB. A nau fica sem rumo: a bússola, perdida entre tantas barganhas. Poupar Fernando Henrique dessa herança que foi, sim, maldita, é demonstração de má fé. Mas, por outro lado, não se pode mais tolerar que Lula e assessores se vangloriem de vitórias que podem ser semelhantes à de Pirro.

A crise financeira mundial mostra as instituições democráticas sendo postas em dúvida. Como aconteceu com a Liga das Nações, a ONU entrou em descrédito. O mundo é interdependente. Lembro-me de, há alguns anos, convidarem-me a ser candidato a isso, àquilo, pelo menos a vereador. Recusei-me, admitindo meu despreparo, pois ainda estudo política internacional e sei que o buraco da esquina depende dela. Uma bomba do Irã ou do Paquistão pode influir até no lixo das calçadas. A bomba explode, bolsas de valores despencam, preços sobem, petróleo dispara, negócios internacionais param, investimentos cessam – não há dinheiro para recolher o lixo.

São tempos de incerteza. Que podem, no entanto, ser interessantes, se viva permanecer a memória e se houver coragem de olhar o próprio umbigo. Se tudo é incerto, ninguém é nada. Que, na incerteza, cada um se pergunte: “Que rei sou eu?” A resposta será desanimadora. Bom dia.

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