Insípidos, inodoros, incolores

InsípidosA campanha eleitoral que se encerrou teve o demérito, também, de decretar a falência dos chamados debates de candidatos pela televisão. Ou eles são fracos demais, os candidatos, ou demasiadamente pasteurizados por seus marqueteiros, ou o formato proposto pelas emissoras não passa de uma tentativa medíocre de um “reality show” desafinado. Não houve contribuição alguma para o pretendido esclarecimento do eleitor, da mesma forma como os programas partidários – promovendo os candidatos – não passaram de bem elaboradas peças publicitárias, com efeitos especiais e uso eficiente, mas artificial, dos recursos da tecnologia. Apresentar Serra ou Dilma foi o mesmo que apresentar um sabonete, um sanduíche do Mc Donalds ou um produto qualquer.

No último debate da Globo, pelo menos em meu entender, os que ainda tinham dúvidas ficaram com outras ainda maiores. E os que não tinham devem ter passado a tê-las. Pois Dilma e Serra estiveram num palco como se fossem aprendizes de teatro ou fazendo algum teste de gestual e interpretação de personagens falsos. Não tiveram brilho, não mostraram e nem demonstraram firmeza, nada falaram de novo e nenhuma proposta de governo apresentaram, a não ser colchas de retalhos já conhecidas, repetitivas, monótonas e cansativas. Serra, com algum traquejo como professor universitário, teve postura de um acadêmico falando para outros acadêmicos, não havendo ninguém, de sua troupe, que lhe sugerisse que – se ia, mesmo, dar-se ares professorais – que, então, se portasse como professor de cursinho, capaz de motivar, de fazer rir, de impedir o sono de alunos. Quanto a Dilma, ela se revelou exatamente aquilo que é: especialista em gerenciar questões, mas sem qualquer carisma e sem o mínimo interesse em criar empatias. Se Serra se mostrou um mestre-escola pretensioso, indiferente ao alunado, Dilma só faltou render graças a Deus por ter chegado ao fim a sua árdua jornada de contato com a opinião pública, que lhe exigiu o que não tem: simpatia e oratória.

De minha parte, não acredito que os debates tenham produzido qualquer contribuição para a decisão que o eleitor tomará nesta eleição. Foi uma campanha sórdida, de truques baixos, de infâmias e de calúnias, inteiramente despida do charme e do conflito que todo drama sério costuma apresentar. E eleição presidencial é um drama, com todas as suas conseqüências e repercussões. Na atual eleição, no entanto, foi como se a narrativa dramática não tivesse protagonistas e, sim, coadjuvantes. Pois os verdadeiros protagonistas – que provocaram tensões, que atiçaram sentimentos controversos – estiveram fora do palco: Fernando Henrique e o presidente Lula. Na realidade, a disputa foi para escolher um dos dois estilos de governar, dois resultados de governo, o anterior e o atual. Serra e Dilma apresentaram-se como sucessores, não como herdeiros de uma filosofia ou de um estilo de fazer política. E foram insípidos, inodoros e incolores.

Na realidade, penso eu, o grande vencedor deste último debate foi o presidente Lula. Pois nunca, como neste final de campanha, tanto começou a se sentir a falta de seu carisma, de sua graça e até mesmo de suas “boutades”. O brilho intenso de Lula impede o surgimento de novas estrelas. Mais ainda: o brilho de qualquer uma outra se esfumaça diante do magnetismo de um homem realmente predestinado. Como já falou alguém do povo: “já sinto saudade.” E bom dia.

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