Internet e magia

picture (99)Já se tornou amigo o moço que me atende em minhas dificuldades com o computador. Sutilmente, sugeriu-me ter algumas aulas particulares de informática, de programas básicos, algum conhecimento teórico. Foi sua maneira gentil de falar de minha incompetência em relação à máquina.

Cocei a cabeça. Mas pensei: se, até hoje, não sei o que injeção eletrônica e dirijo automóvel, por que não dirigir o computador à minha maneira? Tive receio de arriscar, mesmo porque me lembrei do mágico de Fortaleza, mágoa que carrego. Na verdade, nem cearense ele era, mas gaúcho, com bigodões à Olívio Dutra, aquele do PT. Ele instalava-se, às tardes, na Praia da Iracema. Da janela do quarto, no hotel, eu o via juntando multidões. Foi um tempo em que, pelo menos mensalmente, atividades profissionais me levavam ao Nordeste. E me tornei próximo do mágico, admirando as suas proezas, encantando-me com as maravilhas. Mais do que a criançada em seus deslumbres, eu o aplaudia, convencido de estar diante do verdadeiro Mandrake.

Um dia, o mágico me fez a proposta da serpente: se eu comprasse suas peças – baralhos, fios, bolas – ser-me-iam revelados os segredos. E, iniciado no grande mistério, eu seria um mágico. Foi-me tentador: eu, mago, fazedor de magia. Mas e o outro lado da cortina? Pois eu já aprendera que mistérios – especialmente os da alma e os da fantasia – não se devem profanar. Se violados, perdem o encanto e exigem penitências. Vejam Eva e Adão, a complicação em que se meteram e para onde nos levaram, invejosos da magia de Deus.

Fraquejei, cedi. E aprendi os feitiços do mágico. Que eram apenas truques, sem qualquer magia. Então, morreu-me, naquele dia, outro pedacinho da alma. Pois tão banais e falsas aquelas magias, que me senti traído, enganado, a sensação de ilusões perdidas e de sonhos desfeitos. Como a criança, de quem se rouba o doce.

Receio que isso me aconteça, também, com o computador e com a internet. Que, aprendendo a técnica e a teoria, lá se vá o deslumbramento. Cansei-me do tanto que a racionalidade humana desencanta a vida, de quanto rouba o encantamento ao mundo. Quando se aprende o caminho das pedras, caminhar perde a graça. Basta ver a tristeza monótona de especialistas e técnicos, dos que se dizem expertos nisso ou naquilo. Já há até uma história das coisas banais, de como fomos levados a esse consumismo utilitário e desencantado. E é história triste.

Por ora, decidi ficar apenas com meus encantos diante da internet e do computador. Não importa como ou por que funcionam. Basta-me saber clicar aqui, deletar ali, ver o texto surgir do nada da alma e do nada da tela. Torno-me parte do mundo do faz-de-conta, fazendo coisas sem saber como as faço. Parecem milagres. E me sinto astronauta amador pousando na Lua: conduzido pela ciência humana, mas sabendo que São Jorge e o dragão ainda espiam por lá.

Hei, ainda, que manter o encantamento da máquina. E fingir que, apertando um botão, envio palavras e idéias ao espaço, atravessando geografias, passeando entre estrelas. Tal e qual o ET, pedalando a bicicleta, em direção ao céu, tendo a Lua imensa e o azul como pano de fundo. Faço de conta que, pela internet, palavras e idéias são conduzidas na cauda de um raio de luar. Do meu raio de luar.

Sinto-me Ícaro, voando por aí. Um técnico em computação, explicando-me coisas, derreter-me-ia a cera das asas. E viria a queda fatal. Como fatais são sonhos e ilusões que se acabam, encantamentos perdidos. Para quê? Bom dia.

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