Internet e marqueteiros

MarqueteirosA revolução da internet começa a deixar marqueteiros com arrepios de perplexidade. Como fazer para continuar “inventando” produtos, como tem acontecido há décadas. A atual campanha eleitoral, ainda que com suas indefinições, poderia servir para que conhecidos marqueteiros políticos revissem suas técnicas e passassem a respeitar o povo. Pois essa arte de “inventar produto” começou, já há alguns anos, a despertar o povo brasileiro para outras empulhações de que vem sendo vítima e que preferia ignorar ou desconhecia. A “arte de forjar produto e de vender” começa a ser desmoralizada. E isso vale tanto para políticos como para objetos de consumo. A campanha eleitoral deveria servir para o povo escolher melhor até mesmo em supermercado. A internet sacode a consciência nacional.

A grande lição do povo veio do povo na primeira eleição do presidente Lula, confirmada na reeleição e com indícios de opções já determinadas. A imobilidade de José Serra e sua imagem já politicamente envelhecida favorecem a notória ascensão de Dilma Roussef, que surge impulsionada pelo carisma do presidente Lula sem que, pelo menos por enquanto, os marqueteiros tirassem cartas da manga. Com a internet e os grupos de relacionamento, a imprensa, de jornalões e revistas, passou a ser imediatamente contestada, havendo – agora, sim! – a verdadeira comunicação, que é via de mão dupla: a imprensa, que é emissora, o público, o receptor. Quando o receptor reage e interage, há comunicação. Antes, havia mão única, vício que ainda permanece em alguns jornais que se julgam, por aliança com grandes grupos financeiros e econômicos, os únivos formadores da opinião pública. Não há mais isso, a não ser pela presença tóxica dos veículos eletrônicos de comunicação massiva, televisão em especial, que hipnotizam subliminarmente. Ou há quem se esqueça de como Collor “foi inventado”, de como também se “inventou” a intocabilidade de Fernando Henrique e do tucanato.

Nas duas eleições de Lula, houve um poderoso complexo econômico-financeiro-empresarial que, aliado à imprensa, tentou alterar a vontade do povo, manifestada a partir do que o Brasil tem de mais humilde e pobrezinho. De nada adiantou, pois José Serra e Geraldo Alckmin, um após o outro, não alcançavam o coração da população, com imagens assépticas e cansativas. Afinal de contas, governar São Paulo não exige grandes predicados ou lideranças, pois São Paulo agigantou-se apesar de todos e de tudo, fosse Adhemar de Barros ou Jânio, Quércia ou Fleury, Montoro ou Alckmin, Covas ou José Serra. Mesmo com Paulo Maluf e suas aventuras São Paulo cresceu e prosseguiu sua marcha ascensional que, hoje, se torna preocupante, tão o processo de gigantismo urbano a desafiar soluções.

Apesar da união das mais poderosas forças brasileiras em torno de um candidato tucano, não houve, nas duas eleições presidenciais, respaldo popular, nomes que não empolgaram e nem despertaram confiança. Os marqueteiros usaram de todas as técnicas possíveis e imagináveis, incluindo a da baixaria. Mesmo assim, não conseguiram dar, aos candidatos de então, a roupagem que empolgasse o eleitorado, o estímulo que levasse o povo a “comprá-lo”, a “consumi-lo”.

Com a internet, teremos o primeiro grande embate entre internautas e marqueteiros. E, disso, poderá surgir uma lição que o povo – como que para exprimir enjôo, cansaço, rebeldia – comece a dar aos marqueteiros e aos partidos políticos, seja lá a que resultado isso leve. Há sinais reveladores de que o povo já não se deixa mais seduzir tão facilmente pelas embalagens douradas das agências publicitárias.

Quando o povo quer, não há poder que o detenha, nem mesmo a força bruta. Essa é a lição que os partidos políticos e os marqueteiros não querem levar em consideração, como se tivessem o direito divino de impor candidatos e alterar a vontade popular. Há ranços ditatoriais que teimam em manter-se. As manifestações da população em favor da atuação do presidente Lula são uma prova inequívoca de haver uma vontade democrática colocada acima de conluios de gabinetes. Essa vontade do povo precisa ser respeitada de forma absoluta. Dando-se poderes divinatórios, certa imprensa e marqueteiros não querem acreditar nisso. Mas a voz do povo está falando mais verdadeiramente do que as técnicas publicitárias de persuasão.

A liderança de Lula – que resiste a todos os recursos sórdidos e preconceitos – deveria, pelo menos, ser causa de muita reflexão. E reflexão ainda mais intensa e séria porque se trata da preferência nacional por um “torneiro-mecânico”, como os adversários tentam desqualificar Luiz Ignácio Lula da Silva. Um mecânico no país dos bacharéis, um homem sem diploma universitário na Ceia dos Cardeais, herdeiros sentimentais das sesmarias. Bom dia.

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