Inveja e desejos

picture (90)É chato, mas tal como é: quase nunca cumpro promessas que me faço a mim mesmo. Por isso, deixei, aos poucos, de prometer-me fazer ou não fazer. Mas sei que tudo seria mais fácil se, levando-as a sério, eu aprendesse as lições e a leveza de viver de um primo querido meu, que se foi. Ele prometia tudo, não acredito tenha havido alguém a, como ele, fazer tantas promessas para si e para os outros. O incrível é que ele as cumpria. E com facilidade.

Testemunhei uma dessas promessas e o posterior cumprimento dela. Nunca mais me esqueci. Foi à véspera de uma prova de matemática na ESALQ, com um notável mas famigerado professor, Orlando Carneiro. Considerava-se quase milagre ser aprovado pelo dr.Carneiro. E meu primo – além da barreira do professor – tinha outra dificuldade: era preguiçoso. Daí, precisar, o santo milagreiro, ser dos mais poderosos. E ele prometeu que, se aprovado, levaria um paralelepípedo na cabeça, de sua casa até a igreja de Santa Terezinha. Lá em Bauru. A distância era de uns oito quilômetros. Com uma pedra na cabeça, seria sacrifício respeitável, convenhamos. O milagre aconteceu, ele foi aprovado. Restava a promessa.

Com meus tios, morava a doce Ritinha, adorável e santa anciã, magérrima, de energia incomum, lá com seu pouco mais de metro e meio de altura. Era a “Madrinha” de todos, pois ela – com mais de 80 anos – amadrinhara meu tio, meus primos, nem Monsenhor Rosa deve ter escapado. Olhar compungido, meu primo chamou a Ritinha: “Madrinha, Deus ouviu minhas preces, passei em “matema” com o dr. Carneiro. E prometi: você deve ir, daqui até a igreja de Santa Terezinha, com um paralelepípedo na cabeça.” Ritinha não hesitou: tacou a pedra na cabeça e lá se foi até a igreja. De táxi.

Quanto a mim, eu me prometia coisas sem fazer promessas, uma esquisitice. “Prometo que vou parar de fumar.” – e não parava. Quando deixei de prometer, parei. Ora, essas coisas eu as alinhavo por, entre irônico e sarcástico, um amigo xeretar o que venho ameaçando prometer-me a cada ano que se inicia nesse meu já quase Inverno: a de apenas contar histórias. Eis o segredo: nada me prometi, nada planejei, não tenho projetos além de desejos. Seja lá como Deus quiser. Mas, também, como o diabo gosta.

Na realidade, há uma imagem que se me grudou na memória, na carne, na alma, naquele dia em que John Kennedy foi assassinado. Nunca mais me livrei dela, da imagem. Que se me tornou como um sonho inalcançável, ideal de vida, graça caída dos céus. Pois, vendo, pela tevê, as filmagens da tragédia – não havia, ainda, transmissão direta – uma cena me fascinou: em plena tarde de calor suarento, um gringo gordo, barrigão de fora, pés descalços, esticado na poltrona, comendo sei lá se pipoca ou amendoim – tranqüilo, assistia à televisão. O mundo explodia. E ele, diante da televisão. Nunca desejei nada igual na vida. A inveja dura até hoje.

É isso, apenas isso que eu desejo dos céus, como bênção e como graça quando tento me assossegar: a capacidade de desligar-me das coisas, de ficar ausente e à distância dos acontecimentos, de não sentir a tragédia humana, de não me indignar. Anseio por receber o abençoado dom da alienação.

Começo a melhorar. Já consegui, pelo menos uma vez, ir ao cinema à tarde sem sentir culpas; vou, de vez em quando, acompanhar as reformas na rua do Porto, comendo pastéis. Mas estou longe, muito longe do ideal de vida que vislumbrei no gringo gorducho, quando Kennedy morreu: esticadão, ventilador na barriga, pipoca e refrigerante nas mãos. Só não me lembro se ele coçava o dedão do pé. Bom dia.

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