Irresistível diabo no corpo

picture (44)Esse lamentável incidente com o nosso colega Cabrini me fez lembrar daquele padre de Rio Claro que deu uma bruta sova na fiel que lhe falou estar com o diabo no corpo. Diabo no corpo? Lá vai pancada, disse e fez o padre. Sempre pensei muito naquilo, pois com diabo não se brinca. E acho que o Cabrini se meteu nessa enrascada por causa do diabo que estava no corpo da mulher esquisita que o acompanhava. Acho, apenas acho.

Ora, tinha que ser o diabo no corpo daquela mulher, atazanando o Cabrini. E, quando se tem o diabo no corpo, é preciso saber como cuidar dele. E conviver com ele. Se brincar, diabo no corpo é como pulga: dá coceira. E mexe com a cabeça, com a imaginação, com o sexo. Segundo Freud – e alguns inquisidores da Idade Média – diabo no corpo e agitação sexual são quase a mesma coisa. Para Freud, podia ser, em alguns casos, histeria. Para padres medievais, parceria com bruxas.

Acabei interessando-me por essas coisas que, afinal de contas, são mais humanas do que parecem. Um certo Jean Vier – ainda no século 16 – jurou existir um rei do inferno que possuía 1.111 legiões de 6.666 diabos cada uma, portanto, com 7.045.926 servidores. Antes dele, no ano 180 d.C., um outro calculou haver 30.000 demônios. Como são cálculos de muitos séculos passados, não sei dizer se os diabos foram derrotados, se se multiplicaram.

O diabo no corpo da amiga do Cabrini, se realmente estiver lá, precisa ser muito bem observado. Sabe-se que é preciso bater duro, procurá-lo até nas entranhas das pessoas, nem que seja dentro do sutiã, debaixo das saias, essas coisas que me lembro terem sido feitas por aquele padre de Rio Claro. Que ninguém faça ilações precipitadas: o diabo, num corpo de mulher, se esconde nos mais esquisitos lugares. E com formas e tipos e cores múltiplas. Tem diabo que é cão, outro que é bode, um que pode ser leão, além, obviamente, da serpente. O estranho é que diabo, quase sempre, tem preferência por mulher. Desde o tempo de Eva.

Em forma de animal, sabe-se que o danado somente não assume o corpo do cordeiro. Num Concílio, o diabo foi descrito como um “ser grande e negro, com garras, orelhas de asno, olhos faiscantes e dentes rangentes, dotado de um falo enorme e espalhando um odor de enxofre.” A figura assemelhava-se a Pã, deus pagão, muito sacana, que assusta pessoas no mato, está em todo lugar e causa pânico. É isso aí: pânico é coisa de Pã. Pode ter acontecido com o Cabrini.

Tem diabo corcunda, anãozinho. E o que se finge de bonzinho e veste roupinha cor-de-rosa. Houve diabos lindos que, para dormir, usavam apenas perfume, como aquele que encarnou na Marilyn Monroe, revelando o segredo demoníaco ao contar com o que dormia: “Chanel 5”. Não houve quem não quisesse ficar com o diabo no corpo. E o deliciso romance do Raymond Radiguet, “Com o diabo no corpo” (“Le Diable aux corps.”)? O diabo do corpo é irresistível

É preciso ter muita cautela para averiguar se há mesmo diabo na amiga do Cabrini e qual tipo teria encarnado nela. Pois, pelo que sei, há diabos bonzinhos e diabos ruins. Os bonzinhos fazem traquinagens: elfos, gobelins, anõezinhos. Os da Branca de Neve, muita gente os teve como diabinhos da floresta. Mas eram gente fina. Logo, o exorcista, para ser eficiente, tem que saber qual o tipo de diabo apareceu. Tomara que, na companheira do Cabrini, não tenha surgido um com o chifre furado.

Quando a mim, sempre que vejo a Beyoncé na televisão, sinto uma coceira esquisita. Então, me dá vontade de ficar com o diabo no corpo. Bom dia.

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