Jacqueline, Grace e Carla

Grace KellyNão há como negar tenha havido, no mundo, certo constrangimento quando o presidente Sarkozy, da França, se casou com Carla Bruni. Houve, por assim dizer, um silêncio obsequioso. A França é orgulhosa demais para queixumes. Preferiu-se, então, dar-se ênfase à beleza de Carla, à sua simpatia, tornando-a muito mais uma figura de relações públicas internacionais do que a primeira dama do mais vaidoso dos países europeus. No fundo, porém, a autoridade presidencial de Sarkozy sofreu arranhões que se vão tornando feridas.

O poder exerce, como não poderia deixar de ser, poderosa atração também em mulheres. E mulheres belas provocam cobiça de poderosos, seja lá para tê-las como companheiras, seja para exibi-las. E que se não tome Berlusconi como exemplo, pois este é um bilionário forjado por grosserias grotescas. De uma certa forma, lembra um um outro todo poderoso a seu tempo, o armador Aristóteles Onassis, homem sem qualquer refinamento. Mas com fortuna inavaliável.

Desde Júlio César, pesa, sobre mulheres de homens públicos, responsabilidade imensa a respeito de sua própria imagem. O próprio César, diante de suspeitas sobre sua mulher Pompéia, criou a máxima que se tornaria quase lei por todos os tempos: “À mulher de César, não basta ser honesta, deve parecer honesta.” Este, pois, é o castigo às mulheres de homens poderosos, talvez uma injustiça, mas que permanece viva ainda hoje. Carla Bruni é vítima disso, especialmente agora, quando a França se escandaliza, novamente, com a publicação de uma sua biografia não autorizada, na qual Carla aparece como “devoradora de homens”, impondo, a Sarkozy, a presença até mesmo de ex-amantes. Escândalos amorosos derrubam reinos. E um presidente suspeito de subserviência a uma mulher questionável não resiste ao menosprezo do povo. Sarkozy, já com outros problemas, está, agora, na berlinda.

Duas mulheres lindas, refinadas – além da figura icônica de Lady Di – permanecem vivas no imaginário e na lembrança do mundo: Jacqueline Kennedy e Grace Kelly, tornada Princesa de Mônaco. Quando John e Jacqueline apareciam juntos, era como se iluminassem o mundo. Com eles, a Casa Branca se transformou na Camelot dos tempos modernos. Jacqueline era e parecia a mulher de César e o palácio presidencial se transformou em Meca de artistas e intelectuais, além de residência de uma família com seus filhos pequeninos. Parecia um sonho. Após a morte de John, foi-se revelando a grande farsa daquela relação, já que as aventuras amorosas dele estavam em todos os cochichos mundiais. Jacqueline era infeliz. Sua vida era um papel e, mais do que mulher, tinha sido, como primeira dama, uma atriz. Jacqueline caiu do pedestal – embora sua imagem permaneça intocável na memória daqueles tempos – quando se casou com Aristóteles Onassis, um casamento de negócios e de acertos: ela, com seu prestígio e refinamento; ele, com a fortuna que não conseguira polir-lhe a casca dura.

Em Mônaco, a transmutação de Grace Kelly foi notável. Ela, em Hollywood, era conhecida também – por trás de sua máscara de frieza e de assexualidade – como “devoradora de homens”. Passou por muitas camas, entregou-se a muitos braços mas, quando o Príncipe Rainier a escolheu como esposa, para reinar em Mônaco, Grace Kelly, a atriz, morreu. E deu lugar à Grace de Mônaco, um exemplo de nobreza. Ela foi e pareceu honesta mulher de César. Mesmo sendo infeliz.

Com Jacqueline e com Grace – também com Lady Di – o mundo viveu contos de fadas, o encantamento que enriquece o imaginário e o cotidiano das pessoas. Histórias de amor bem-fazem à alma popular, especialmente quando a Gata Borralheira encontra o Príncipe Encantado. A imprensa tentou repetir essa história com Carla Bruni, mas não conseguiu pois a missão é impossível. Carla Bruni não convence. Pois, aos olhos do mundo, ela nem sequer parece ser, de verdade, a mulher do César francês. Em histórias de fadas, de príncipes e princesas, não há espaço para vulgaridade. Bom dia.

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