Jardim de Adônis e Rua do Porto

Quando Piracicaba, a partir da Câmara de Vereadores e da Amoporto, começa a mobilizar-se para a recuperação da quase perdida Rua do Porto – desleixo acontecido nestes anos de tucanato voraz – permito-me reproduzir, até mesmo para constar dos arquivos de A Província, a reflexão que fiz no dia 07 de novembro de 2004, quando cronista do Jornal de Piracicaba. Que valha como lembrança:

“Foi quase à véspera de São João, em 2002. Sei disso por, naquele entardecer, a memória ter-me revelado: há 30 anos, eu não me sentava, descontraídamente, para conversar com um prefeito. A última vez, fora naquele mesmo lugar ** na Arapuca – ao início da administração de Adilson Maluf, na segunda feira do Carnaval de 1973. Piracicaba ia deixando de ser a que fora.

No “tempo d´antes”, era comum jornalistas e prefeitos e políticos sentarem-se para conversar. Na “Arapuca”, falava-se com Cássio Padovani, Lazinho Capellari, João Herrmann; na “Brasserie”, com Salgot Castillon, Benedito de Andrade; na “A Baiana”, com Luciano Guidotti; no “Giocondo”, com Bentão. E, na “Casa da Ruth” – mais do que meretrício, lugar de encontro –com condes, barões e coronéis.

Naquela quase véspera de São João, há dois anos, ouvíamos o prefeito José Machado falar de sonhos, planos, projetos. Registrei o que poderia ser a síntese de todos eles: “quero Piracicaba toda florida, como um jardim.” Em José Machado, renovava-se a declaração de amor de Newton de Mello à cidade “cheia de flores, cheia de encantos.” Alguma coisa deu errado, mas não é, ainda, tempo de avaliações. Deu certo, porém, o jardim principal, essa realização que foi o “start”, o despertar: a nova Rua do Porto, elo entre a cidade que foi e a que poderá vir a ser.

Àquela conversa descontraída – à inspiração vinda do rio, da paisagem majestática da Chácara Nazareth – lembro-me de ter revelado, ao prefeito José Machado, também o meu sonho de jardineiro: Piracicaba inspirada nos jardins de Rosa de Jesus, a estética reunindo os piracicabanos, a beleza devolvendo-nos o entusiasmo pela terra amada, o belo voltando a inspirar a construção, os bordados, os arremates da natureza singular que nos emoldura. Esbarrei no êxtase, falei a José Machado dos meus delírios: Piracicaba como jardim de Adônis, o milagre deslumbrante de ressurreições permanentes.

Pois ainda sonho em ser jardineiro de tais jardins, na vida pessoal e na comunitária. Ser cultor e cultivador de espaços onde a festa pagã comungue com a cristã, dança de santos e de ninfas e de elfos, cidades transformadas em bosques. E que, nelas, se celebrem também a paixão, a morte, a ressurreição de Adônis, mito pagão tão assemelhado ao sacrifício de Cristo. Pois dizem – lenda e mito – que Adônis fora ferido de morte por Ares, o ciumento amante de Afrodite, transformado em javali. Uma lança no flanco. Mas Adônis ressuscitava a cada sua morte.

E, à chegada da Primavera, o povo esperava a ressurreição, plantando mudas de rosas em vasos e caixotes. E milagres aconteciam. Pois milagre – o “miraculum”, a maravilha – é a erupção do divino no mundo através do belo que se não explica. E o maior deles: Adônis se transfigurava em anêmona. E a rosa – branca, no início do mundo – se tornava vermelha de cada gota de sangue do jovem deus. E de Afrodite que, em pressas de amor, pisara em espinhos. Do sangue de Adônis, anêmonas; das lágrimas de Afrodite, rosas.

Continuo indo à Rua do Porto. E vejo o povo encantado diante da beleza renovada, a ressurreição acontecida. Se José Machado não transformou Piracicaba numa cidade-jardim, deu o início. Ali se plantou um jardim de Adônis, de belezas que cativam. Certamente – como os antigos faziam com seus cestos de flores, celebrando a ressurreição – alguém haverá de criar um canteiro de rosas naquela rua em gratidão a José Machado. Pois é ele o jardineiro principal.”

Ninguém plantou rosas, mas houve a omissão que possibilitou permissividades e destruições. Aquela rua é de Piracicaba mas, desde a sua juventude, o atual alcaide acreditou que fosse um lugar de ações escusas. Ele sabe do que digo. Bom dia.

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