Jardins e ineptos.

JardimO Ocidente está temeroso. Pois, prevê-se venha a ser, a China, a maior potência mundial ainda na próxima década. Os chineses estão conseguindo-o a partir da sabedoria. Pois saber é mais do que conhecer e, portanto, sabedoria está além do conhecimento. Há coisas que se sabem sem que se conheçam. Outras, podemos conhecê-las sem, no entanto, delas saber. A sabedoria saboreia. E viver que mais é senão saborear?

Os que conhecem dizem ser, a cidade chinesa de Suzhou, um dos mais belos lugares do mundo, com jardins lendários cultivados milenarmente. Entre eles, há um que se tornou local de peregrinação, por seus encantos e, também, por ser relicário de sabedoria. É o “jardim do príncipe inepto”. Sei que já escrevi sobre isso, mas o fato é que, diz a lenda, tal era a paixão do príncipe pelo jardim que nada, além daqueles espaços, mais lhe importava na vida, muito menos governar. Grande jogador – e para que ninguém o aborrecesse – convidava os vizinhos para jogos de azar num mirante do palácio, de onde ele contemplava a paisagem sem igual. Enquanto todos jogavam, ele ficava em meditação, o olhar enriquecido pela beleza de plantas, flores, árvores. Seu povo, porém, queria que ele governasse mais, que fizesse obras, não percebendo serem, os jardins, a sua grande criação.

Aos romeiros que visitam aquele lugar de peregrinação, conta-se que o príncipe decidiu, então, revelar-se um homem inepto, na certeza de que ninguém haveria de querer um governante e príncipe ineptos. Colocou em disputa metade das suas terras e, propositalmente, perdeu-as no jogo. Era, pois, um inepto. Os vizinhos ergueram muros, separaram a metade das terras que pertencera ao príncipe. E este, do alto do mirante, continuou contemplando os mesmos jardins, cuidando pessoalmente apenas da pequena parte que lhe sobrou. As belezas permaneciam as mesmas, ele podia extasiar-se diante delas sem ter compromisso de ser príncipe e de governar. Passados alguns mil anos, multidões ainda peregrinam para ver o jardim do príncipe inepto.

O mundo é um jardim. Não foi à toa que as nossas origens se prendem ao Éden, ao paradisíaco. A imagem do paraíso nos acompanha como que grudada no umbigo da alma. E, como castigo, colhemos o êxtase edênico que se rompeu, o paraíso que foi perdido. Continua assim. Há homens que cultivam e conservam jardins, há homens que os pisoteiam. Um dos sentidos mais tocantes da lenda chinesa está na sabedoria do príncipe de que a beleza pertence a todos e no entendimento errado dos vizinhos, de que muros podem ocultar o que é belo. Muros separam e, se colocados para proteger, algo de ruim ou de doentio aconteceu. Quando o homem – tendo aprendido a se defender dos animais – saiu da caverna, criou vizinhança, plantou sementes da cidade, quis falar de uma sabedoria natural para a convivência e a segurança. Agora, levando animais para casa e afastando-se de seus vizinhos, temendo-os, revela a doença que matou almas e destruiu sonhos.

Ou todos cuidam do paraíso comum ou não haverá mesmo alternativa senão a de preservar jardins particulares e olhar de longe. A cidade é o jardim de cada povo. Há quase 30 anos, quando vendi meu jornal, escrevi um último artigo onde pretendi dar um recado final: eu decidira ser jardineiro. De alguma forma, mostrei-me governante inepto. Jardins para todos somente podem existir se cultivados por todos. Foi o que escrevi. E foi o que tentei dizer, novamente, a alguém que me procurou cobrando-me mais participação política. Ora, que participação maior, como testemunho, há senão a de cuidar de um jardim? É o que tenho feito. O meu, como o do príncipe chinês, é o jardim de um jornalista inepto. Pois ainda olho Piracicaba como um jardim, um dos mais belos que já vi. Bom dia.

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