Jesus à la carte

Deixei, há muitos anos, de ter problemas existenciais e ontológicos. No momento em que compreendi a minha absoluta incapacidade de entender coisas acima da minha parca inteligência, desisti. Aquela historinha – que se contava a respeito de Santo Agostinho – me parece a mais exemplar para nos darmos conta da finitude humana, de nossa dolorosa precariedade.

Dizia-se, na historinha, que – passeando pela praia e refletindo sobre o mistério da Santíssima Trindade – Agostinho viu um garoto que, com uma canequinha na mão, ia ao mar e voltava, com porções d’água, enfiando-as num buraquinho na areia. Perguntado, por Agostinho, do porquê daquilo, o garotinho disse que, de caneca em caneca, iria encher o buraco com toda a água do mar. Então, o Bispo de Hipona e teólogo fundamental da Igreja, riu-se: “Você nunca conseguirá colocar o mar dentro desse buraquinho de areia.” O menino respondeu: “É mais fácil eu conseguir fazê-lo do que você tentar entender o mistério da Santíssima Trindade.”

Ou seja: o continente limita o conteúdo. A finitude humana – por mais pretensiosos sejamos – jamais entenderá os mistérios do infinito, se existir o infinito. Reconhecendo, pois, a minha absurda limitação intelectual e racional deixei de me preocupar com essas questões, sem mais pensar em razões de viver e para viver. A vida, esta vive-se vivendo. Basta estar vivo. O princípio de alguma sabedoria está em aceitar as próprias limitações, saber que elas existem, ainda que não saibamos, por algum tempo, identificá-las.

No entanto, apaixonei-me por alguns estudos, uns puxando os outros, levando para mais alguns, uma sequência interminável realmente instigante mas também inquietante. A maior das riquezas, confesso-o, que, para mim, eu as encontro ainda no estudo de humanidades. Em especial, no mergulho nas ciências das religiões, comparadas entre si, tesouro imensurável que revela as angústias humanas de todas as civilizações em todas as épocas da humanidade. É um emaranhado sem fim: filosofia, história, antropologia, psicologia, mitologia, geografia, etnografia, etimologia, política, moral, o escambal! Ao mesmo tempo, sufoca e excita. Para não dizer que enlouquece de ansiedade. Querer saber é desgraça e penitência humanas. Para que querer saber, isso não sei.

O fato é que decidi resolver uma questão pessoal: para mim, Deus existe. Não sei qual é, nem onde, nem como, nem porquê. Se for invenção do homem, ele também existe mas como confusão e caos. Veja-se o pobre Jesus Cristo, de quem sinto, cada vez mais, pena intensa. Pois, há dois mil anos ele é proclamado, visto, revisto, inventado, reinventado, interpretado, reinterpretado, criado e recriado, negado e amado. É um coitado de tão banalizado e mediocrizado que foi e tem sido, um Jesus Cristo à la carte, ao gosto do freguês, para ser usado e abusado, explorado e sugado.

Até hoje, por exemplo, não sei se Jesus Cristo é corintiano ou palmeirense. Ou sãopaulino, santista, flamenguista, botafoguense. Quando assisto a jogos, vejo os jogadores do Corinthians – quando e se marcam gols – olharem para o alto, fazendo o sinal da cruz ou apontando os dedos para os céus, agradecendo a ajuda de Deus, em nome de Jesus. Ou vice-versa. E se é palmeirense que faz gol, lá estão jogadores e torcida agradecendo ao Jesus alvi-verde. Que raio, pois, é esse homem-deus? Para que time torce? Acaba se tornando, em meu entender, um tremendo cara de pau, um gozador emérito ou simples demagogo ou falsário.

E o Jesus da religiões? Tem um para cada gosto. Agora mesmo, na política, tomando apenas a cidade de São Paulo como exemplo; tem o Jesus Evangélico do Russomano, o outro Jesus Evangélico do Serra, o Jesus Católico do Chalita, um Jesus diferente para cada seita, igreja e eleitorado. E um briga com o outro. Em nome desse Jesus de opereta, mata-se e morre-se, ama-se e odeia-se, rouba-se e engana-se. E multidões acreditam nessa salada babilônica, um prato chamado “Jesus à la carte”.

São três as religiões ditas abraâmicas, descendentes de Abrahão, monoteístas: judaísmo, cristianismo, islamismo. E estão, todas elas, se matando e se odiando em nome de Javé, Jesus e Maomé. Em minha opinião, emburrecemos.Pois melhor seria se continuássemos pagãos, com todos os deuses do Olimpo, tão humanos quanto nós mesmos, mas diversos, para todos os gostos e momentos. Aliás, a Igreja Católica é a que mais próxima está desse panteão de iluminados, com todos os seus santos, anjos e virgens Marias. Nossa Senhora é múltipla; das dores, dos prazeres, do bom parto, das graças.E até Desatadora de Nós. Gosto disso. A variedade é genial para multidões que, desnorteadas pelo deus-dinheiro, encontram seus deuses pessoais. Isso faz bem. Só não sei se resolve alguma coisa. Mas viver rituais, sonhos e esperanças é preciso. Bom dia.

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