Jesus, Judas, Lula e o bispo

Não há qualquer dúvida de ser, Lula, um gênio político. Parodiando-o, podemos dizer que nunca, antes, na história deste país, houve um político com tanta intuição e sagacidade políticas. Quando se pensa que ele, a seu modo, disse besteiras ou impropriedades, passa-se o tempo e, então, se percebe que Lula falou, à sua maneira, verdades cristalinas. Quantos não o tentaram espezinhar por causa da “marolinha”? E o mundo se rendeu a Lula: no Brasil, a crise foi mesmo uma “marolinha”, internacionalmente reconhecida.

Agora, políticos e toda a imprensa de oposição caíram na nova casca de banana que Lula lançou para distrair a plebe. Ou, como dizem os franceses, “pour épater le bourgeois”, distraindo a burguesia descompromissada. Pode até ser de mau gosto a comparação que Lula fez, a de que, para governar o Brasil, até Jesus Cristo faria aliança com Judas. E um bispo apressado respondeu, também farisaicamente: “Mas Jesus não fez aliança com fariseus.” Claro que não fez. Mas a diferença é fundamental e não um simples detalhe: o reino de Jesus Cristo não era deste mundo. Ele anunciou o reino dos céus, lá para onde vão os santos e onde se encontram os anjos.

Seja posta, pois, como de mau gosto a comparação de Lula. Mas com corretíssimo fundamento político, pois política é ciência e arte dos homens, que deixou, há muito tempo, de ser um serviço para se transformar em ação entre amigos. Se Jesus Cristo resolvesse assumir uma liderança política no Brasil, ele teria a nítida alternativa: ou realizaria milagres, mudando tudo, ou faria alianças. E Jesus Cristo saberia que, no Brasil, os partidos políticos são essa verdadeira máfia de chefões e de chefinhos que buscam partilhas do poder. Mas Jesus Cristo desistiria de querer ser líder político, retornando a seu destino de anunciador de um outro reino.

Mas, convenhamos: se Lula foi inconveniente, fariseu, mesmo, foi Dom Barbosa, secretário geral da CNBB que, posando de senhor angélico, denuncia os fariseus do passado como se a Igreja fosse apenas uma instituição de inspiração divina. Não é. A Igreja Católica está vinculada a um Estado, o Vaticano, que tem relações políticas internacionais, que faz política, que exerce o poder e que luta, com grande maestria, para mantê-lo e ampliá-lo.

Ora, bolas: a Igreja tem que ter cuidados para criticar alianças políticas seja lá de quem for e de qualquer nação. Pois a Igreja Católica é especialista numa diplomacia de sobrevivência e não se diga que apenas inspirada pelo Espírito Santo. Em todos os tempos, a Igreja fez acordos com os poderosos, sem dar lá grande importância à moralidade deles. Em 1964, no Brasil, a Igreja esteve aliada aos militares que destroçaram a democracia brasileira, que instalaram a tirania e que, ao depois, violaram todos os direitos humanos. Poucas vozes, como a de D.Helder Câmara, se levantaram contra. Mas a própria Igreja se encarregou de enviar D. Helder para o limbo, passando a agir e a reagir apenas quando as circunstâncias foram favoráveis, então sob a corajosa liderança de Dom Paulo Evaristo Arns.

Foi a Igreja Católica que se aliou ao corrupto Adhemar de Barros para deflagrar a Marcha pela Família, com Deus, pela Liberdade, eufemismo para um golpe militar. Ou ninguém mais se lembra de Adhemar de Barros, com o terço na mãos, desfilando ao lado do Cardeal Carmelo Motta, que se aliou aos corruptos do momento? Foi a Igreja Católica que esteve presente nos golpes militares no Uruguai, na Argentina, no Chile. Foi a Igreja Católica que fez a concordata com Mussolini antes da II Guerra Mundial, preferindo ceder sua santidade em favor da sobrevivência física. Foi o Papa Pio XII quem agiu com silêncio obsequioso diante das atrocidades de Hitler. E nem sequer fazemos questão de lembrar alianças milenares com reis, rainhas, impérios, nestes mais de dois mil anos. Sem tais alianças, como a Igreja Católica, instituição humana, teria sobrevivido? O Espírito Santo não sopra à toa. E nem perde tempo com quem não está habilitado a receber sua ação. Aliás, a graça supõe a natureza, não é mesmo? O Vaticano, com sua perfeita estrutura política e diplomática, tem a natureza apropriada para receber as mais abundantes graças divinas. E políticas.

A Igreja faz alianças, sim. Faz alianças com a China comunista, para manter seu espaço num Estado comunista e de atrocidades humanas. Fez alianças com Fidel Castro. Faz alianças com o candomblé para manter um sincretismo religioso na Bahia e em Cuba, por exemplo. O Papa João Paulo II fez alianças com Estados Unidos e Reino Unido, tornando-se cúmplice do materialismo capitalista, para derrubar o materialismo comunista da União Soviética.

Vá lá que Lula tenha sido infeliz na comparação, ainda que seu gênio político tenha lançado uma casca de banana para a oposição novamente escorregar . Mas o cinismo do bispo da CNBB foi simplesmente repulsivo. Se o PMDB e José Sarney são assim tão demoníacos e fariseus, por que o arcebispo de Brasília recebe, com todas as pompas e em sua residência oficial, o próprio Sarney, celebrando missa particular para o presidente do Congresso Nacional? Ah! sim: Sarney pode ser chefe de um bando político, mas é bom católico. Ora, essas falácias.

Lula, sobre todos eles, leva uma grande e imbatível vantagem: fala a linguagem do povo e, com isso, faz alta filosofia, excelente teologia e se torna mestre em ciência política. Agora, é esperar que o PSDB e o DEM instalem uma CPI para apurar as relações de Jesus, Judas e Lula. O bispo, obivamente, ficará fora. E bom dia.

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