Jogo da vida, jogar é viver

picture (17)Há, na história humana, o pedagógico relato do jornalista que foi aos altos das montanhas tibetanas em busca de ouvir, do sábio, qual o segredo da sabedoria. Ele perguntou, o velho sábio ficou em silêncio. O jornalista perguntou outra vez e, em resposta, ainda ouviu o silêncio do velho. E, na terceira vez, a resposta foi a mesma: o silêncio.

Desacoroçoado, o jornalista insistiu, cobrando o velho sábio tibetano por não lhe ter respondido à pergunta. E o sábio, finalmente, falou: “Eu respondi desde a primeira vez. Você é que não ouviu.” Estava tudo lá: o segredo da sabedoria era o silêncio. E é.

Nesta noite de domingo de maio, ouço o silêncio das coisas e, de uma chácara vizinha, ecos de vozes de crianças brincando. Há um sopro de brisa noturna, brisa outonal, quase fria. Fica-me a certeza de meu Outono verdadeiro, da vida e da alma, de corpo e de espírito. E isso é bom. Fico pacificado. Mas quase que com vergonha de não assumir decisões definitivas, de romper os últimos bloqueios, de me colocar, enfim, na dimensão e no lugar do ancião da aldeia que permanece em seu canto, sentindo o calor da tarde que se põe, o frescor da manhã que surge. A vida é essa alternância de noite e de dia, de frio e de calor, de alegria e de tristeza, de beleza e de feiúra. Saber escolher e ficar em contemplação, eis o segredo que, penso eu, está nessa simplicidade de viver. É um jogo.

No mais fundo de mim, fico perguntando-me o que tenho feito nessa quase obsessão de manter um jornal eletrônico,de contar histórias, de manter viva a memória. No fundo de mim, eu sei tratar-se de uma forma de testamento, de herança. Deixo, à minha terra, aquilo que recolhi dela. Mas não me parece sábia essa transmissão de herança. Pois ela irá perder-se, como se perdem heranças de família, de pais para filhos, de avós para netos. No entanto, deixar parece ser um destino humano. O homem deixa, um sinônimo de plantar. E a mulher recolhe e acolhe. Quando o faz, é ela, a mulher, que dá continuidade a tudo. O que vier depois – filhos, netos, genros, noras – isso não tem mais importância. É o jogo em continuação, o jogo com suas variantes e variáveis, com seus imprevistos e, também, com as paixões que fazem o sangue correr, o coração pulsar, os pulmões inflarem-se por ou de falta de ar.

Ora, sei que nada mais tenho a dizer, nem a comentar. E, também, nada de que reclamar, nada para opinar. Se Barjas Negri é prefeito de Piracicaba e o povo o reelege, dá para entender porque os Estados Unidos elegeram e reelegeram George W.Bush. A história se repete. E faz purgações quando menos se espera. De repente, aparece um Obama. Como apareceu um Lula. No Brasil, no entanto, tudo acontecia, quase sempre, com quase 30 anos de atraso. Agora, está mudando. Os ventos são mais rápidos e mais transformadores. É o jogo. E quem se estabilizou não conseguirá jogar mais nada. Já perdeu por antecipação. Piracicaba, sem ainda perceber, está diante de elites perdedoras.

Estou, nesta noite, pensando em Huizinga, o grande filósofo e antropólogo, pensador admirável. Ele escreveu, há algumas décadas, o monumental Homo Ludens, a história do homem a partir do jogo, do lúdico. Desgraçadamente, as escolas não falam disso e as religiões tentam carimbá-lo como mal e pecado, condição menos digna do ser humano. Mas é mentira, falsidade, hipocrisia e tentativa ideológica de domínio e de poder. O jogo é da natureza humana, parte integrante e integral. A criança, ao jogar, joga com a mãe, contra ela. A mãe, ao repreender, joga com o filho, a favor ou contra ele.

Pela sobrevivência, todos os seres vivos jogam. Há, entre os que chamamos de irracionais, as leis da sobrevivência, que chamamos de leis da selva. Mata-se, tapeia-se, engana-se para sobreviver. É o jogo da vida. Entre nós, que nos chamamos de racionais, fazemos o mesmo jogo, mas a partir de outras leis, nem sempre mais honestas ou legítimas. A lei da civilização – bem como o Direito, a Religião – são convenções. E, quase sempre, bloqueia e impede o jogo natural da vida. E, então, viver deixa de ser jogar, para se tornar um simples e melancólico subordinar-se.

Nesta noite, quando me dou consciência, ainda outra vez, de que o melhor de mim seria estar em silêncio, teimo em falar, teimo em escrever. Intelectuais medíocres e amargurados menosprezam e estigmatizaram a paixão universal pelo futebol. E ainda o fazem. Mas Huizinga já havia entendido, compreendido, abismando-se: o futebol é o mais completo jogo da vida, onde todos os protagonistas se encontram, desempenhando papéis, atores e espectadores. Estamos todos lá, jogando ou como assistentes, no campo ou nas arquibancadas, como o espectador está no teatro, sendo parte da peça, identificando-se com o autor e com atores.

Neste final de semana, a Espanha incendiou-se de emoção com o final do campeonato de futebol, o grande jogo entre Barcelona e Real Madri. E o Brasil literalmente parou, explodindo de euforia e de êxtase emocional com as vitórias do Corinthians e do Flamengo, apenas para dizer de São Paulo e de Rio. Cada jogada, cada palavra de Ronaldo, o Gorducho, tem valido mais, para o povo, do que decisões do Supremo Tribunal ou do Banco Central.

Enfim, estou tentando argumentar que, nada mais tendo a dizer e a escrever, sinto êxtase de alma para proclamar a partir da conquista do Corinthians, um time mediano, quase medíocre, que se organizou e que lutou por um objetivo. E se fez campeão, como campeões se fazem os aparentente pequeninos. Foi o jogo, o grande jogo. Mas com regras e leis que se não contestam. No futebol, contestam-se decisões de árbitros e de bandeirinhas, erros, equívocos. No entanto, são claras e pétreas as regras do jogo. E eis a questão, que me angustia na suave noite de maio: no Brasil e no Mundo, há um jogo sem regras. E todos entram em conflito, o caos. Num campo de futebol, há – apesar de erros e de equívocos – vencedores e vencidos, na maravilha de saber que nada é definitivo: o campeão de hoje poderá ser o grande derrotado de amanhã. E o último poderá ser o primeiro. Políticos fingem não saber disso. Bom dia.

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