Jogo, paixão e vida

Quem acompanhou o sofrimento dos palmeirenses nas últimas horas do domingo, na expectativa de o time sobreviver ou morrer na Divisão Especial, não pôde deixar de pensar na paixão também como dor. Corintiano é especialista nisto. E, por o ser, não deveria zombar do velho adversário, pois já essa dor e essa paixão são nossas conhecidas íntimas.

O importante, penso eu, seria conseguirmos refletir sobre o significado do jogo na própria vida e na vida nacional. Há um monumental livro – certamente um dos mais importantes do pensamento mundial – que fala sobre isso: o “Homo Ludens”, de Johan Huizinga. Como filosofia da história, é um dos livros fundamentais. Escrita em 1938, a obra mostra o jogo como peça fundamental na vida cultural dos povos e não, apenas, um vício ou uma tolice como falsos puritanos ou intelectuais capengas acreditam.

A vida é um jogo. Sempre foi. Um jogo que começa mesmo antes da concepção. Lá estão lutando, entre si, milhões de espermatozóides pela vitória de um ou outro fecundar o óvulo que fará brotar a vida. E continua desde o nascimento, no jogo da sobrevivência, no jogo que criou a arte de viver. Guerras são jogos. Conquistas da paz por via diplomática também. O casamento é um jogo. A família, também. A formação de um povo é o grande jogo de interesses conflitantes que, quando sintetizados, forma uma nação.

Num jogo de futebol – antropólogos e sociólogos já exauriram a questão – define-se até mesmo a personalidade de cada jogador, conforme a posição em que atue. O centro-avante seria um individualista, valente mas de pouco senso. O goleiro, um narcisista. O meia armador, o cérebro da equipe, a inteligência. E assim por diante. O despertar de paixões provocado pelo futebol e tantos outros jogos resume, na verdade, sentimentos, emoções, sensações, até mesmo os mais escondidos e obscuros ângulos primitivos da alma humana.

A paixão futebolística tem sido explorada – em países onde o futebol é esse fenômeno de massa – até mesmo como arma e instrumento políticos. Na ditadura, foi o futebol – a conquista do tricampeonato mundial em 1970 – que deu mais força aos militares. Na Argentina, foi uma grande negociação política em torno da Copa do Mundo, dando a vitória aos “hermanos”, que fortaleceu os cruéis ditadores militares. Se Marx tivesse vivido em nosso século, talvez viesse a afirmar que, em lugar da religião, é o “futebol o ópio do povo”. E não seria novidade, pois está em vigor, ainda, a grande percepção populista dos romanos: dar, ao povo, pão e circo.

Já há muitos anos, como corintiano irracional e fanático, tenho pensado em como o Brasil poderia ser um país mais forte e poderoso se essa nação corintiana devotasse a mesma paixão pela nação brasileira. E se, a ela, se somassem as paixões flamenguistas, palmeirenses, gremistas, atleticanas – essa paixão pelo jogo que, na verdade, é paixão pela vida. Quando o brasileiro torcer pelo Brasil como torce por seu time de futebol, quando vermos a vida nacional como um grande jogo a ser jogado – onde vençam os melhores e mais competentes – tudo poderá mudar. Para isso, talvez seja melhor ler “Homo Ludens” e refletir. Sei lá. Bom dia.

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