Jogo sujo

Deve ser possível haver alguma forma de sabedoria no simples dar de ombros. Há quem – após a longa caminhada – o faça. Mas outros existem que não sabem ou que não conseguem fazê-lo. Quando é longa a estrada, quanto mais próximo se está da reta final, mais distante se fica da largada. À frente, vão poucos. E retornam alguns. De trás, chegam muitos. Como numa corrida de bastão, os que saíram antes entregam o bordão aos que vieram depois. E assim se vai, de sucessão em sucessão. Quem fracassa na entrega acaba com o jogo. As Olimpíadas, que se acabam, provaram-no.

Também é um jogo, esse do ser humano: o da convivência, da vida em comunidade, esse de buscar formas de civilização. Não é verdadeiro que tudo esteja pronto, paraíso apenas a ser redescoberto. À inteligência humana, o mundo é caótico, as forças da natureza indomadas. Construção é o viver do homem, tijolo por tijolo, um jogo de construir. Se o jogo não tiver regras, como jogá-lo?

Houve tempo em que – em nome da liberdade, do mercado, de ideologias – alimentava-se o temor de o público invadir o privado. Temiam-se governos ditatoriais, filosofias totalitárias, centralismos econômicos. Confundiram-se as noções de liberalismo, liberalidade e de liberdade. E, assim, fez-se a apologia do individualismo, do ser humano autônomo, o homem feliz “sem lei e sem rei”, a não ser as da economia. Agora, deu-se o contrário: o privado invadiu o público e não mais se sabe o que é bem particular, bem comum; o que é público, o que é privado. O jogo ficou sem regras.

Após a longa caminhada, quem entrega o bastão – mesmo sem dar de ombros – fica à margem da corrida. A visão é estratégica: vê-se o que aconteceu atrás, o que ocorre diante dos olhos e réstias do horizonte logo à frente. Pode-se enxergar – brilhando à distância de poucos metros – a luz no fim do túnel. Ou o abismo.

Sabe-se de lições de abismo, “o abismo invocando o abismo”, como – magistral e comovedoramente – no-las deixou gravadas com letras de ouro Gustavo Corção. O abismo invoca o abismo, o horror invoca o horror, o belo invoca o belo – não há por e para onde fugir. Viver é um jogo com regras.

picturePois bem e vamos lá: ando – como quem confessa o cansaço – querendo dar de ombros. A estrada se alongou, a largada ficou distante, a reta final está cada vez mais próxima. Ficar à margem – vendo os que passam, os que chegam, aqueles que param, os que retornam – machuca mesmo quando se conhecem as regras do jogo. E martiriza, diante de jogo sem regras. Para onde vão os que chegam? Onde ficarão os que entregaram o bastão? E os que retornam, cansados e feridos – qual o tempo deles? E o lugar? Eis meu drama pessoal: quero mas não consigo dar de ombros.

Não há como jogar o jogo sem regras ou quando a regra é não ter regra alguma. Cinema, por exemplo. É espaço público ou privado? Se é público, há normas e regras de convivência, de respeito entre todos, de, pelo menos, uma expectativa comum. Se é lugar público, ao qual se vai para assistir a um filme, cinema não pode, então, ser sala de refeições, onde se come tudo e quanto se deseja; nem motel, onde se ama à inteira vontade dos clientes; nem mesa de bar onde se senta para conversar. Se, no entanto, cinema for um espaço privado, é, então, possível entender que, em seu interior, cada um faça o que bem entende. Como na sua própria casa. Ou na da mãe-Joana.

O medo anterior – de o público dominar o privado – fez-se maldição: perdeu-se a noção de bem público, também a de bem comum. Quando uns poucos acreditam poder tudo, é possível contê-los. Quando muitos acreditam nisso, é penoso e árduo enfrentá-los. Quando todos acreditam poder tudo, não há saída. Jogo sem regras termina em violência. É jogo sujo. Bom dia.

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