Jornalista e contador de histórias

pictureMais do que antes, escrever é, hoje, perigoso, atividade de riscos crescentes. Nunca, talvez, como em nossos tempos, a noção de realidade se tornou tão complexa, tal a promiscuidade entre concreto e imaginário. O real é mesmo a coisa? Se for, a coisa, quê é, em quê se tornou? E vou lá, eu, saber? Mesmo porque não estou e nem sou suficientemente louco para discutir o que seja realidade. Mil anos seriam insuficientes, mesmo que se começasse tudo de novo.

Não consigo esquecer-me de minha reação quando da tragédia do ataque terrorista em Nova York. Um amigo me telefonou, desesperado, convidando-me a ligar a televisão, o horror mostrado ao vivo. Liguei. Vi as torres gêmeas caindo, a explosão, a fumaça. Mudei de canal, procurei outros, neles estavam as mesmas cenas. Continuei procurando onde ocorria e qual era a tragédia, pois o que eu via na tevê me parecera apenas um espetáculo, como se mais um filme de efeitos especiais, o horror glamourizado. Pensei fosse ficção. E, diante de meus olhos, estava o real. Precisei de um tempo para entender que o real estava na tela do televisor. Foi inesquecivelmente perturbador.

A reflexão , sobre a complexidade de escrever , comecei a fazê-la após dois telefonemas coincidentemente recebidos numa mesma manhã fria. No primeiro, a mulher dirigia-se ao escritor, indignada: “Li seu romance, você é um mentiroso. Isso não existe. Você inventa o amor, inventa até a mulher amada.” Tentei explicar tratar-se apenas de um romance, trabalho literário. Ela insistiu: “É romance mas é mentira, esse amor não existe.” Foi-me, então, inevitável pensar em Wilde, seu alucinado desejo de mostrar “que a vida imita a arte muito mais do que a arte imita da vida.” E se for o contrário? Calei-me.

Mais do que triste, sinto ser pobre esse medo do amor, a necessidade de transformá-lo em equação com fórmulas e resolução sempre iguais e exatas. Ora, o amor tem que ser inventado, reinventado. Sempre. Nem os deuses suportaram viver sem inventar. E inventaram o mundo, a vida, as coisas, os animais, céus, terras, mares e, por fim, homem e mulher. Daí, tiveram inveja do amor humano. Pois entenderam que, em vez de saber das coisas, homem e mulher vivem-nas. É isso.

No outro telefonema, a leitora dirigia-se ao jornalista: “Li um episódio político que eu não conhecia. Você inventou?” Pensei na admirável filosofia de vida de uma amiga, que evita saber das coisas: “O que eu não sei não existe.”, fala, convicta. Deve ser bom. Mas não o contei à leitora, pois ela tocara na questão chata e crucial: jornalista não pode inventar. Ele é, apenas, o escrevente do cotidiano, rascunhador da história. Se um dos amantes matar o outro, o jornalista só pode contar a chatice de que um amante matou o outro, quando, como, onde e porque. Mas essa tragédia de notas policiais, o jornalista, fazendo-se escritor, pode transformá-la numa talvez desesperada história de amor, romance repleto de paixões.

Escrever, pois, está cada vez mais difícil. Mas fiquemos assim: jornalista é o chato da história, que sequer usa adjetivos. O escritor inventa, reinventa, na fantástica pretensão de imitar os deuses, inventores de tudo o que aí está. Quem, mais esplêndidos músicos, poetas, pintores do que os deuses? O orvalho, quem inventou? E o crepúsculo? Eis, talvez, a resposta que Wilde não quis se dar: a arte imita o divino. O artista inventa roubar lampejos dos deuses para brincar de ser um deles, no seu jardim de delícias. No amor, também.

Está complicado ser jornalista: leitor não entende ou finge não entender e jornalista não pode inventar. Melhor, pois, ser contador de histórias. Bom dia.

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