Judeu Errante e espaço sagrado

picture (27)Quanto mais passa o tempo, mais me recordo do poeta que me falou, quase perplexo: “Minha impressão é a de que você sempre existiu.” Ele mal passara dos 40 anos e eu, à época, estava próximo de completar cinco décadas de jornalismo. Ora, era verdade: para ele, eu sempre existi. Pois, quando ele estava sendo gerado, eu já escrevia em jornal. Agora, mais ainda lhe pareço um ancestral.

A reflexão me alcança novamente pela sensação de cansaço, de tão grande exaustão que enjôo diante da repetição das mesmas coisas, mesmices que se mediocrizam multiplicadamente. Mais do que ter existido sempre, minha quase certeza é de ter-me tornado um outro Judeu Errante, o do mito. E isso é penoso, pois tudo se repete, os ciclos sucedem-se uns aos outros, modismos vão, acabam, retornam. E o Sol continua o mesmo e sob ele não há qualquer novidade.

O Judeu Errante foi um infeliz que sempre existiu. São tantas as versões sobre o mito que se confundiu com a lenda. Uma delas me agrada em especial: na Armênia, um judeu convertido e batizado com o nome de Ananias, revelou ser o Ahasverus, o judeu errante, o “eterno estrangeiro”. Era aquele que se recusou a ajudar Jesus no caminho do Calvário. Diz a lenda que Ahasverus, também carpinteiro, viu Jesus passar-lhe frente à porta, trôpego, querendo descansar. Ahasverus mandou-o embora, dando-lhe as costas. E Jesus lhe respondeu: “Eu vou embora, sim. Mas você sempre ficará à minha volta.” O judeu eterno nunca conseguiu morrer. E viu e vê tudo.

Ora, há muito de Ahasverus em quem vive tempo demais, especialmente em épocas de grande rapidez. Não são, porém, as pessoas que sobrevivem a tudo, mas coisas, modos de ser, culturas, valores que morrem depressa demais, mundos que desaparecem com velocidade quase espantosa. De repente, o que existiu ontem parece, hoje, não mais existir. O Judeu Errante vê mas se percebe “eterno estrangeiro” onde quer que se encontre. E nada há de mais terrível para um ser humano do que se sentir estrangeiro em sua própria terra, estrangeiro em seu próprio mundo.

Nestes tempos ditos globalizados, multidões começam a se ver exiladas em seus próprios espaços, estranhas em sua terra. A velocidade dos acontecimentos atropela valores e impede reflexões. Massas humanas que vão e voltam, como se não tivessem destino, afastando, para os lados, os que ainda crêem em espaços sagrados: a própria cidade, o quarteirão, a rua onde moram, a casa, ao lado de vizinhos, de amigos, de parentes. Sem espaços sagrados, não há como o ser humano sobreviver em sua dignidade pessoal e viver sua vocação solidária.

Oriente é orientar. E a sabedoria oriental, em uma de suas muitas vertentes, sugere a opção pela simplicidade quando não se sabe para onde ir ou onde se está: ficar. É o sentido da encruzilhada que, sendo símbolo negativo para muitos, é reveladoramente positiva: a encruzilhada, quando caminhos contrários se apresentam, é o centro de tudo. De certa forma, a perplexidade pode ser a encruzilhada pessoal de cada homem consciente, o centro de seu universo interior nem que seja por algum tempo.

Os primitivos tinham consciência desse centro do mundo, do “axis mundi”. Erguiam seus tótens, postes e monumentos para sinalizar que, naquele lugar, se construía o espaço sagrado. Qual Judeu Errante – que vê o tempo passar, as coisas morrerem e novamente recomeçarem – vejo Piracicaba perplexa nessa sua falta de referencial. Estamos, porém, em encruzilhada e é apenas um período. Se formos sábios, saberemos entender seja, a encruzilhada, nosso espaço sagrado de viver um tempo também sagrado de espera. Vendavais, pragas e epidemias passam. Bom dia.

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