Juízo e iluminação

Pois é. Era o que faltava e, agora, deve ficar como o diabo gosta. A dorzinha vinha, voltava, tornava a vir. A moça, Liliana, olhava-me, dizia: ”Tem que tirar”. Pensei fosse brincadeira, talo absurdo. Daí, o colega dela, o moço Ben-Hur, confirmou: ”Tem que tirar”. Acreditei fosse complô, aquelas coisas que o Lula via no início do governo dele, a “teoria conspiratória”. Além do mais, Ben-Hur é nome de herói guerreiro, comandante de brigas na arena romana, coisas de Charlton Heston. Pensei fosse cinema, brincadeirinha.

Na verdade, era humilhante. Pensei em mil coisas, em situações feias, chatas, até mesmo em bruxarias. Mas a ordem ficou-me na cabeça, especialmente porque tenho medo: ”Tem que tirar, tem que tirar”. Há algo de envergonhante nisso. Entre os nossos ancestrais, tirar era sinal de castração, de falência, de energia vital que se ia, que se acaba. Era assim: para humilhar o adversário, arrancavam-se os dentes. dele. Em mim, era um só que a moça e o moço, doutores em dentes alheios, queriam tirar. Um só. Mas significativo, simbólico, glorioso: o do siso. Como pode um homem, aos 63 anos, admitir tirem-lhe o dente do siso? Com que cara haverei de olhar filhos e netos se, indo-se o dente do siso, lá se vai, também, o juízo? Foi isso, porém, que me animou: perder o juízo. O que restou.

Ora, não tenho mais idade para fingir coisas. Admito, pois, ter medo de dentistas, do motor maldito, da cadeira de tortura, casa dos horrores, do Frankenstein. De medo, fico dócil, manso. Dizem empalideço feito folha de papel. E amareleço, segundo outros. Além do medo, tenho motivos para prevenir-me de azares de dentes e de dentistas. Há coisas sagradas e misteriosas nisso. Aprendi faz tempo, desde uma vez em que, sem saber o motivo até hoje, fui paraninfo de uma turma de dentistas cá da terrinha. Até o Zeferino Vaz estava lá. Então, fui estudar algo inteligente para falar aos rapazes, qualquer coisa além dos feitos de Tiradentes, o alferes.

Descobri coisas. Uma delas, porém, aprendi através do Cerinha que, entre as tantas de suas maluquices, tinha uma em especial: todo santo dia, ele me enviava um e-mail sobre o santo do dia. Foi assim que aprendi ser santa Apolônia a padroeira dos dentistas e dos pacientes. Conto conforme aprendi, conto sem aumentar qualquer ponto: à coitadinha da santa, em seu martírio, arrancaram-lhe todos os dentes, vejam que judiação. Por isso, na iconografia, ela aparece com um boticão.

Dente é coisa sagrada, os antigos sabiam disso. Tanto assim é que tribos primitivas faziam amuleto dos dentes de seus inimigos, colares de dentes deles e de animais. E dentinho-de-leite? Hoje, não sei, mas, quando caía, a criança tinha que, de costas, atirá-lo para cima do telhado, fazendo um pedido. Mas se o jogasse no chão, não podia olhar para trás. Dava azar.

Ora, arrancar o dente a um homem é humilhá-lo. É tirar-lhe a força, a energia vital, nossos ancestrais sabiam disso. Desgraça maior, porém – santo Deus! – é perder o dente do siso. Na Irlanda, há uma crença de que é o dente da “iluminação do canto”, riqueza de músicos e poetas. Para seduzir a mulher’ amada, o amante irlandês põe o dedão debaixo do dente do siso, morde-o fortemente e, em seguida, canta uma quadrinha melódica. A dor vai para os deuses; a música sofrida é da amada. Sem o siso, que faço, eu?

A vantagem é que, agora, haverá de ser como o diabo gosta. Pois, enfim, perco, de vez, o juízo, o pouco que sobrou. E é tudo o que eu mais queria. Bom dia.

Deixe um comentário