Juventude, música e esportes

Piracicaba, no final do século 19 – com menos de 10 mil habitantes – tinha 50 residências com piano. As escolas confessionais – Piracicabano, Assunção, Frades e outras particulares – insistiam na educação artística. Nosso passado tem, pois, uma herança artística que, queiramos ou não, é hereditária. Cultural ou geneticamente.

Lembro-me de meus estudos no Colégio Dom Bosco, os antigos ginasial e científico. Por mais exigentes fossem os professores e mais disciplinadores os padres, a educação objetivava a formação plena do aluno, científica e humanisticamente. Tínhamos aulas que, hoje, soariam como absurdas para alguns. Por exemplo: aula de Civilidade. Aprendia-se como se sentar à mesa, como cumprimentar senhoras e pessoas idosas, postura, relações sociais. Os meninos sabiam que, ao subir uma escada, o homem tem que ir à frente da mulher. Para descer, também, se possível com um braço estendido na possibilidade de ela tropeçar e, então, ter apoio. À mesa, o homem puxa a cadeira para a mulher sentar-se. Levanta-se se ela se levantar. Abre a porta do carro para ela entrar. Era assim.

Além de orientação religiosa – respeitando-se os não católicos – havia aulas de arte, de teoria musical, de canto orfeônico. E esportes, muitos esportes. Campeonatos sem fim de futebol, de basquete, de vôlei e, quando surgiu, também de futebol de salão. A meninada tinha – e sabia – conciliar estudos e lazer. E, à noite, havia tempo para namoricos. E serestas.

Já quase me cansei de repetir a frase lapidar de Dostoievsky: “A beleza salvará o mundo.” É a única e última saída. João Paulo II – em sua sabedoria e preocupação com os destinos da humanidade – escreveu uma notável mensagem aos artistas em que insiste na importância essencial de se cultuar e cultivar a beleza. Para ele, “o homem é chamado a ser o artífice da própria vida.” E mais: “A beleza é a expressão visível do bem. E bem é a condição metafísica da beleza.” E ainda mais e conclusivamente: “O homem precisa da beleza para não cair no desespero.”

No entanto, os nossos têm sido tempos do cultivo à feiúra. Quando se se refere à música, fala-se de bandas, de barulho, de ruídos, de sons guerreiros para não dizer que bárbaros. E os esportes? Parecem importantes apenas quando propiciam lucros, vantagens financeiras. Pais há, hoje, que forçam filhos a jogar futebol – supondo sejam talentosos – na expectativa de que venham a ser futuros milionários, mas esquecidos das multidões de jogadores que vivem no anonimato e com vencimentos miseráveis.

A arte e o esporte podem – e até mesmo devem – formar profissionais. No entanto, acima de tudo, são instrumentos essenciais para a formação espiritual, moral e física da juventude. A música – a verdadeira, não a festa de ruídos – traz a dimensão do sublime. Reconforta a alma e refina o espírito. O esporte, por sua vez, estimula a competitividade honesta, a obediência a regras, o respeito ao adversário, o aprimoramento do corpo. As escolas do passado sabiam disso. E, por essa razão, preparavam – tendo as famílias como aliadas – os jovens para a vida, abrindo-lhes as mentes para o universo do humanismo e da ciência. Hoje, a maioria prepara a juventude para exames vestibulares ao ingresso às faculdades. E estas prepararam-se, quase todas, para a produção de mão de obra especializada a serviço do mercado. A pessoa humana cede espaço à pessoa robotizada.

“O homem é chamado para ser artífice de sua própria vida.” – eis a chave de tudo. Somos, pois, uma construção humana. Deixar-se construir pelas leis do mercado é ser indigno da graça de viver. Mas tem sido assim. Bom dia.

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