Ladrões de paisagem

PaisagemNão consigo mais ir à margem direita do rio pela ponte do Mirante. É como se um pequeno punhal me ferisse a alma, um espinho no coração, pontada aguda. E, ao mesmo tempo em que me sinto violentado, sou dominado por um sentimento de impotência pessoal e de raiva diante de uma covardia coletiva. A nova ponte se agiganta como um monstro feroz cujas patas se estendem sobre as pessoas, pisoteando belezas naturais, matando um patrimônio histórico ancestral: a poesia, a harmonia do rio, uma das Ilhas dos Amores, a mais bela, que enriqueceu, até agora, o imaginário de um povo. E uma inconformação que me incomoda cada vez mais, dia a dia: onde foi parar a alma de artista de João Chaddad? Ou ele é o artista do cimento, de naturezas mortas e artificiais? Pois João Chaddad – de quem, insisto, fui admirador e por quem sempre tive carinho especial – está inscrito nos anais da história piracicabana como um dos principais co-autores de destruições naturais, como se fosse um servidor de grandes interesses, ao preço de violentar sua própria terra.

Não consigo mais passar por aquela ponte, pois me é como ser espectador impotente de um crime sem nome, minha perplexidade de saber não adiantar em nada – a não ser como registro para os pósteros – protestar, berrar, indignar-me diante de homens públicos que para mim agora têm do que ser chamados: ladrões de paisagem. Eles roubam a beleza da paisagem em favor sabe-se lá de quem e de quê. Piracicaba, há décadas, vem sido violentada naquilo que temos de mais belo, nossas belezas naturais. Lembro-me de quando João Chaddad projetou o prédio da antiga prefeitura na rua São José e o preço do monstrengo era a morte do largo e do jardim da Igreja de São Benedito, onde reinavam, lindas e imponentes, as palmeiras imperiais plantadas pelo próprio D.Pedro II. Eu morava diante daquele jardim e, vi, todo dia, o furor de Luciano Guidotti diante da resistência das palmeiras que se negavam a cair, a tombar. Foram semanas de luta, até que os dendroclastas venceram. E, para quem não sabe, dendroclasta é aquele que não respeita as árvores, matador de árvores, assassino de árvores, assim como os nossos cruéis e desprezíveis ladrões de paisagem.

No passado, quando a Câmara Municipal era formada por homens ilustres que prestavam serviços à população como um dever e honraria, houve um grande debate quando a Light propôs construir, no Salto, uma usina hidroelétrica. A proposta, caso a autorização fosse concedida, seria o fornecimento gratuito de energia elétrica a toda a população e iluminação pública. A indignação foi geral e a proposta tida como ofensiva: o Salto era e é um patrimônio de um povo, intocável portanto. Hoje, ladrões de paisagem violam e violentam a Ilha dos Amores, soterrando-a sob um monstro de cimento por onde trafegarão veículos de todos os portes, especialmente os que, obviamente, sirvam grandes empresas.

O raciocínio é torto, a cultura é errônea. Não temos mais que facilitar o tráfego de veículos particulares, ampliar avenidas, fazer pontes e roubar paisagens para facilitar o trânsito. Temos que lutar para transformar essa cultura idiota em que o egoísmo e o individualismo permitem que milhares de automóveis trafeguem com uma única pessoa, a grande luta em prol do transporte coletivo de qualidade. E, em especial, uma luta ainda maior, mais ampla, mais realista para enfrentar a raiz dos problemas: evitar que homens públicos sejam eleitos ou levados a cargos de responsabilidade com essa ficha suja de ladrões de paisagem.

Não consigo mais passar por lá. Mas acredito na força da lenda, no milagre do mistério escondido sob as águas. Aquela ponte já nasce com nome e não adianta querer batizá-la com outro: é a Ponte da Morte. Da morte da Ilha dos Amores. Bom dia.

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