Lágrimas da festa

pictureFestas de fim-de-ano – independentemente de questões de fé – despertam emoções e aguçam sensibilidades. E, ao contrário do que pensam os pragmáticos, é coletivo o sentimento. A alma universal está à flor da pele. E, mesmo sabendo que o capitalismo se tornou dono da festa, há anseios de confraternização, desabafos de generosidade, a vontade boa de ser bom. É uma festa emotiva. Festa de lágrimas.

O sempre notável Vieira tem um sermão em que reflete sobre lágrimas com causa e lágrimas sem causa. Pessoas com motivo para chorar derramam lágrimas com causa. Os amigos podem ajudar a secá-las. Lágrimas sem causa, estas não têm outro remédio senão o de curarem-se por si mesmas. No choro das gentes, Vieira enxergava diferenças: há pessoas que choram e pessoas que se choram. Diante dos que choram, pode-se tentar consolá-los. Os que apenas se choram, estes são inconsoláveis: ninguém, a não ser eles próprios, tem o que fazer por si mesmos.

Tais pensamentos, Vieira os fez tentando abrir os olhos dos governantes. Tomando, como sempre, lições de Cristo, Vieira perguntava-se se os príncipes sabiam o que fazer ao povo, qual a principal missão do governante em relação aos governados. E respondeu, ele próprio: “Enxugar as lágrimas, consolar as tristezas, torná-los contentes.” O próprio ideal de céu, com o qual se acena para os mortais, indica essa placidez: “onde as lágrimas serão enxugadas, onde não haverá mais morte, nem clamor, nem mais dor.”

Se, nas alturas, propunha-se um grande ideal, nada restaria, cá na planície, senão tentar-se a imitação, por mais imperfeita seja. Políticos, religiosos, filósofos anseiam por criar esse “céu na terra.” Sonhar uma cidade é tentar construir esse lugar de viver, de transformá-la num “céu na terra”. São, nesse final de ano soturno, inquietações de jornalista, forma de contribuir, pelo menos, para meditar a respeito dos que choram e dos que se choram.

Festas de fim de ano são ainda mais angustiantes, de inquietações e de ansiedades. Há pessoas que choram e há pessoas que se choram, como Vieira as enxergara. Logo, lágrimas com causa, lágrimas sem causa. As primeiras, é dever dos governantes e de todos nós, tentarmos secá-las. Quanto às outras, que cada um cuide de suas lamentações íntimas, de seu chorar-se.

Ora, seria tolice pretender simplificar o sofrimento do povo, tantas e tamanhas as causas desses mares de lágrimas, lágrimas com causa. É fim de ano e se anuncia o armistício natalino nas trincheiras e no front. Lágrimas, porém, continuam. Pois, mesmo em festas pagãs há emoções e sentimentos. E – ainda que precária ou paliativamente – muitas dessas lágrimas natalinas, lágrimas com causa, poderiam ser consoladas. Pois o povo chora também por falta de beleza, por fome de espiritualidade, por anseio de singelezas, coisas pequeninas que enfeitam a vida e, pelo menos em parte, mitigam grandes dores.

A Casa de Noel – feita de luzes e de sonhos – é testemunha de quanto o povo vai em busca do belo. E as ruas da cidade, por outro lado, foram visões amargas de festas tristes, com homens incapazes de perguntar ao povo que vê ruas violentas: “Por que chora?” São lágrimas com causa, como as da criança se lhe tiram o doce da boca. Pensou-se em consumismo sem alma. Vieira também fala dessa gente, dos que se fecham à esperança: “Ó estultos, tardos de coração.” Bom dia.

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