Lanterna da popa, lanterna da proa

astronomical-clockQuando ainda garotinho, ouvi a inquietante versão a respeito da eternidade. Tratava-se do infinito, algo impossível de ser absorvido pela inteligência humana. Um dos mestres fazia-nos a comparação também assustadora. Bastar-nos-ia imaginar uma imensa montanha de diamantes, tão alta que se perdia acima das nuvens. A cada mil anos, um passarinho chegaria até o cimo e daria uma pequenina bicada. Quando a montanha fosse inteiramente destruída pelo bico do passarinho, eis que, então, se teria passado o primeiro segundo da eternidade.

Confesso e admito que isso, ao longo da vida, me marcou fundo. A ideia de infinito, de eternidade tornou-se-me inseparável tema de reflexões. E foi com elas, as reflexões, que criei, para mim mesmo, a noção de tempo. Não mais me importou o que entende a ciência, pois aprendi a conviver com o tempo a meu modo. E de maneira simples: não é o tempo que passa, mas nós que passamos por ele. Se há uma eternidade, há, também, o infinito. E, se o tempo é infinito, não tem começo nem fim. Fica imóvel, disponível. Passar por ele e através dele é, então, a imensa aventura humana. Se não acredito inteiramente nisso, é do que tento me convencer.

Nestes dias para mim espantosos – o espanto da perplexidade, de uma quase incredibilidade – nada mais tenho feito senão pensar no mistério e na bênção – que Deus arquitetou para minha vida – de, durante 50 anos, estar escrevendo uma mesma coluna. Ora, há os que fazem 50 anos de casamento, 50 anos de profissão, 50 anos de existência. Essa maravilha, por si só, é uma bênção. Mas como imaginar, avaliar, entender, compreender que minha coluna “Bom Dia” tenha estado comigo nestes quase inimagináveis 50 anos? Se Deus me permitir, farei, ano que vem, 50 anos de literatura. E, no próximo, 60 de jornalismo. Até me é possível entender. Mas 50 anos de uma coluna diária? A perplexidade atordoa-me.

Descubro e entendo que nada me resta a fazer senão render graças. A Deus, sem Quem – tenho certeza – nada teria sido possível. Como sobrevivi a tantas lutas, tantas dificuldades, tantos boicotes e violências, tantas ilusões e desilusões, tantas enfermidades graves – senão pelo desejo Dele? Essa convicção emociona-me ainda mais por ter-me, eu, afastado da fé, desprezando tesouros preciosos que me enriqueceram a alma e a vida. Quando quis retornar, não consegui. Quando estava desistindo, retornei. D. Eduardo Koaik – bispo e amigo meu – ria-se de mim: “Não adianta lutar contra. Deus o persegue.” Aconteceu.

Ao entregar – à minha gente e à minha terra – neste dia 30 de julho, o livro com que quero celebrar esta bênção, faço meus agradecimentos a tantos e tantos leitores – conhecidos e desconhecidos – que me animaram nesta jornada. A amigos, companheiros, familiares, filhos, netos. E a esta Piracicaba a quem entreguei minha vida, como missão e como sacerdócio. Permitam-me não fazer avaliações, não criar balanços. Mais do que emoção, é um estado por assim dizer anestésico que me envolve. Por alguns dias, não mais caminhei pelo tempo. Fiquei nele, paralisado. Foi como um barco alguns dias ancorado para o descanso. Para a reflexão.

Pausado, o barco balouça em águas calmas. Mas instiga, estimula, atiça. Pois as lanternas estão acesas. A da popa, iluminando a caminhada percorrida diariamente nestes 50 anos. E a lanterna da proa, indicando mais caminho a percorrer. Entre essas duas iluminações – do que foi e do que será – fico, apenas, com meus sustos e perplexidades. A lanterna da popa – do que passou – insiste em lembrar-me de toda uma herança que carrego comigo, dos milhares de dias, de acontecimentos, de alegrias e de tragédias, de nascimentos e de mortes, de transformações, de ganhos e de perdas. A luz da popa avisa: “Antes de ir em frente, olhe para trás.” Na retaguarda, há  caminhos percorridos – que forjaram a alma e o espírito. E a luz da proa convida e estimula: “Em frente, caminhemos. O tempo está parado à sua espera.” Quero ir.

Rendo graças. Assustado, tenho apenas que dizer de minha comovida gratidão. “Deo gratias”.  Bom dia.

1 comentário

  1. Antonio Carlos Danelon - Totó em 29/07/2014 às 11:49

    Quero mais 50!

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