‘Lingeries’ em corpo sem alma

Sinto-me tão encarnadamente humano que confesso a minha incapacidade, por assim dizer absoluta, de entender o primeiro mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas.” Espanto-me quando alguém me fala disso. Perdoem-me os capazes de tanto amor, mas até meu coração protesta, indignado, diante de uma proposta que me assusta: amar mais a Deus do que a meus filhos. E a meus netos. E a minha família.

Por que haveria, Deus, de exigir que eu o ame mais do que aos filhos de minha carne. E para quê iria, Deus, precisar disso? Na alma, isso me repercute como algo ao mesmo tempo violento, pretensioso e cruel. E de uma vaidade absoluta, como deve ser a vaidade dos deuses. Que, portanto, nenhum deus se atreva a impor-me esse mandamento egoísta e pretensioso: “Ame-me mais do que a seus filhos.” Será perda de tempo.

O amor ao divino não se impõe. Ele brota, ele explode, jorra, penso eu, ao reconhecimento deslumbrado e diante das maravilhas que nos cercam, coisas e pessoas, o mistério do universo. Não fossem elas, confesso-o, pelo menos por mim: seria muito pobre, pobrezinho demais o meu amor. Um homem, aos céus, nada mais tem a oferecer do que a sua rendição ao mistério. Por isso mesmo – digo-o por mim – há momentos em que – mais do que amor – tenho medo, terror, pavor pânico de Deus, de sua cólera, da ira dos céus. Como num canto de Sofonias, imagino o “dies irae”, escatológico, a cólera de Deus dissolvendo todos os tempos. Quero estar longe para não ver a hecatombe. Que – para ser franco – não sei porque ainda não aconteceu. A paciência desse deus parece infinita.

Pois foi medo dessa cólera divina que eu senti ao ouvir as lamúrias de uma jovem mulher, linda, escultural, separada do marido. Éramos poucas pessoas, todas amigas, acolhidas na majestosa casa da bela mulher. A manhã era de sol esplêndido e de céu azul, muitas árvores e flores rodeando-nos, a piscina com água límpida, o serviçal trazendo-nos cervejinha gelada, caipirinha, refrigerantes, salgadinhos, música no ar como que emoldurando o silêncio do local afastado dos ruídos da cidade. Éramos privilegiados, privilegiadíssimas pessoas vivendo momentos quase perfeitos de paz e de serenidade.

Então, doeu-me o estômago, algo machucou-me o peito, levantei-me, quase saí correndo. Foi como se eu perdesse o direito a meu “ócio com dignidade” e aquilo tudo fosse uma provocação à cólera de Deus, ao castigo que haveria de cair sobre nós como tempestades de areia, maremotos, erupções vulcânicas. Por culpa daquela mulher, veio-me a certeza quase absoluta: seríamos atingidos por raios dos céus que nos reduziriam a cinzas. Quase corri, pois amo demais a vida para perdê-la por culpa da estupidez de outras pessoas. Aquela mulher era uma estúpida.

Pensei, a princípio, estivesse, ela, brincando, ironias e cinismos de mau gosto vindos de uma pessoa enfarada. Aos poucos, percebi serem lamúrias verdadeiras. Pois, na manhã translúcida e de confortos esplêndidos, a mulher passou a lamentar-se, indignada, dizendo-se à beira do desespero, suas dificuldades, a crueldade do ex-marido, o “mau acordo” que fizera: a casa imensa, outra no litoral, pensão de 12 mil reais mensais, além de planos de saúde para ela e os dois filhos, escolas e cursos das crianças pagos pelo ex-marido cruel. Como viver assim?

E alinhava o rol de desgraças: mudar as cortinas, renovar os lençóis das camas, comprar outros. “Vejam, a camareira troca-os três vezes por semana e estou habituada a trocá-los diariamente.” Pensei em interrompê-la, lembrando-me de ser, aquela cama, um leito vazio de amor, lençóis sem marcas e sem amassaduras. Mas ela continuou: “E minhas lingeries? Estão fora de moda…” Levantou-se, rodopiou, mostrando as curvas do corpo, apontou os quadris: “Vejam, as gordurinhas. Preciso fazer uma lipo e meu ex-marido se nega a pagar a cirurgia. Isso lá é vida?” Vi seu corpo bonito, ainda mais bonito pelas gordurinhas, marcas da vida. Tentei, mas não consegui imaginá-lo envolto por vestes sensuais: era um corpo sem vida. Não, apenas, por não receber amor, mas por não tê-lo para dar.

Com medo da ira de Deus, fui-me embora. Mas nada aconteceu. Tentei acreditar em que, talvez, a paciência de Deus fosse maior do que a sua cólera. Mas desisti, lembrando-me de que Deus descansou no sétimo dia. Deve, ainda, estar dormindo.

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