Liquidações e Dia dos Reis.

Não fossem o comércio e suas fantásticas promoções e liquidações, parece que ninguém haveria de se lembrar do Dia dos Reis, antes uma data especialíssima, dia de a criançada ser reverenciada com presentes mais ternos. Os pais – pelo menos em minha infância foi assim – em memória dos Reis Magos que levaram ouro incenso e mirra ao Menino de Belém, colocavam lembranças delicadas nos sapatinhos das crianças. Eram chocolates, um brinquedinho, até mesmo uma goma de mascar. Completava-se, assim, a festa natalina e era chegado o momento, também, de desmontar a Árvore de Natal, de tirar os enfeites e retornarmos, todos, à vida secular e profana.

O comércio está dando verdadeiro presente de Reis Magos à turba indômita dos consumidores. Tem sido assim nos últimos anos: os preços sobem às alturas por volta das festas natalinas e, passadas estas, eles descem como foguete em queda. Cada casa comercial é um verdadeiro Rei Mago com suas ofertas mirabolantes, tentadoras, irresistíveis. Mas, no fundo, no fundo, esse presente de magos apenas disfarça alguns presentes de grego. Por quê, em apenas poucos dias, os preços podem baixar tão escandalosamente? Qual o fenômeno? Ou se trata apenas de esperteza que mal disfarça o que pode, portanto, ocultar lucros abusivos?

Um aparelho eletrônico cujo preço cai em 70% em relação ao seu valor nas festas natalinas deve ter alguma explicação razoável, que não seja a da esperteza apenas comercial. Ora, dirão muitos: o comerciante tem direito a fazer o que bem entende, pois estamos no livre mercado. Concordo. Mas acredito, também, que os cidadãos tenham direitos mais amplos e que, pelo menos, como consumidores, devam ser mais espertos. Ou tem sentido endividar-se absurdamente em véspera de Natal, para, em janeiro, descobrir que todos os preços dos produtos caíram vertiginosamente?

Isso, no entanto, não vem de nossos tempos. É prática antiga. Agora, apenas se sofisticou com novas técnicas de sedução do público. Lembro-me de que, nos 1980, em protesto por sentir-me tratado como idiota, decidi inverter algumas comemorações natalinas. Passei a dar ênfase, em dezembro, a valores de ordem espiritual, conversas com filhos, orações, reflexões e, na Noite de Natal, em vez de Papai Noel e seus presentes, minha mulher e eu dávamos alguns bilhetinhos que valiam como vales para as crianças: vale uma boneca, vale um ursinho, vale um patinete. E, então, no começo de janeiro – quando já explodiam as monumentais liquidações e promoções – íamos com a criançada às lojas quando, então, eles recebiam os presentinhos do Dia dos Reis.

Até quando seremos vítimas das artimanhas do mercado, confesso que acredito isso esteja próximo de sofrer profundas alterações. Não há mais senso de cidadania que suporte os apetites insaciáveis dos grandes conglomerados, a pressão psicológica dos marqueteiros, esses especialistas na ciência da sedução e do condicionamento. Hoje, uma das mais graves doenças está sendo a do consumismo incontrolável. Pois há pessoas que não resistem a comprar, comprar e comprar, mesmo sem ter necessidade alguma da compra que fez. Isso é doença. Que, portanto, precisa ser tratada para que esses enfermos não continuem sendo vítimas das explorações de uma fera, a do mercado, que é insaciável na sua capacidade de devorar e de triturar.

Ora, sabe-se que não há almoço grátis. E que não se fazem milagres com preços muitos baixos. Então, algo não está explicado quando empresas – que venderam produtos caríssimos no Natal – queiram, agora, vender os mesmo com descontos de 50 a 70%. Os espertos sabemos quem são. Mas os idiotas e explorados são, quase sempre, anônimos. E que tal uma campanha para fazer compras depois do Natal, depois da Páscoa, depois do Dia das Crianças? É preciso pensar e reagir. Faça-o quem puder, quem se recusar a ser explorado e quem se envergonhar por ser tratado como idiota. Bom dia

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