Livros eletrônicos

Alguns coleguinhas da imprensa – em especial donos de veículos impressos – chamam-me de pessimista quando digo da morte iminente da chamada “imprensa escrita”. Não será morte total, mas quase que um extermínio que tornará raridade a comunicação escrita. Jornais diários, serão poucos os que sobreviverão, como já está ocorrendo em todo o mundo. E os que sobreviverem será por terem compreendido que o papel do jornalismo escrito, hoje, é outro. Investigativo, opinativo, de grandes reportagens e entrevistas. A notícia – como fonte principal de informação – já está relegada a um plano secundário em jornais e revistas. A internet atropelou tudo. E já criou um mundo novo. Irreversível.

Fui honrado, em meados dos 1980, a, como leigo e jornalista, representar a CNBB em estudos feitos pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) para o equacionamento do que se pretendia fosse uma “Teologia da Comunicação. Encontros e estudos e debates aconteceram no Brasil, no Chile, no Peru e, desde aquela década, já se previa o surgimento de novas formas de comunicação. A internet – que se iniciara em meados de 1960 – já dava grandes passos na década de 1980. Sem se imaginar o que viria a ser, já se previam, então, modificações revolucionárias. Primeira grande conclusão daquele encontro para as próximas décadas: ficariam os jornais pequeninos, de bairro, voltados para suas cidades, os “provincials papers” e três ou quatro grande empresas jornalísticas nacionais. Os meios eletrônicos trariam a grande revolução.

Ela, pois, chegou, aí está, é irreversível. E, agora, a novidade para o Brasil, neste Natal, é a chegada dos “livros eletrônicos”, pela Amazon – pioneira nos EUA – e outras grandes empresas. Tablets, celulares, readers-books, já poderão se tornar bibliotecas pessoais, carregadas nos bolsos. E a juventude – que já ignora escritos em papel – poderá – se quiser e se puder – ter acesso às obras de grandes autores e a trabalhos didáticos. Livros de papel sobreviverão? Ainda existirão daqui, digamos, uns 20 anos?

Tenho lá minhas dúvidas. Pois estou vendo envelhecer e morrer as últimas gerações formadas pelos jornais e livros de papel. E mais: que editoras de livros eletrônicos se arriscariam a divulgar obras como D.Quixote, Lusíadas, Ilíada e Odisséia, autores como Ovídio, Cícero, Dostoievsky, Tolstoi, Victor Hugo, Chateaubriand, nossos clássicos portugueses e brasileiros, tantos e tantos outros, em todas as línguas, que compõem a cultura universal? Quem leria, num tablet, “Em busca do tempo perdido”, de Proust? Ou a Divina Comédia, de Dante Alighieri, ou o Paraíso Perdido, de Milton?

Olho para minha biblioteca, vejo milhares de volumes colecionados ao longo de mais de 60 anos, minhas procuras em sebos, minhas aperturas financeiras para poder comprar livros, os grandes clássicos da humanidade, artistas, músicos, biografias, dicionários temáticos – e sinto pena. Na minha biblioteca, sintomática ou propositalmente, ficaram as minhas duas máquinas de escrever, de datilografar, que me acompanharam desde a adolescência até o primeiro computador. Certa vez, um netinho meu, vendo-as, ficou curioso: “o que é isso, vô?” Pressinto que um bisneto – pois já tenho uma, por afinidade familiar – verá, daqui a alguns anos, os meus livros e perguntará: “o que é isso, biso?”

Estou prestes a não saber mais nem quem sou eu mesmo, na minha luta cotidiana para não me deixar robotizar. Bom dia.

1 comentário

  1. Delza Frare Chamma em 09/12/2012 às 18:11

    Cecílio, desejo que você se engane com relação ao término dos livros. Pois os jovens que poderão e terão essa nova possibilidade virtual de leitura estarão mais é absorvidos em seus "joguinhos" virtuais. Leitura? Quando muito uma frase ou outra no twitter. De qualquer forma, não passarei por essa tortura de testemunhar o fim do querido livro de papel, com seu cheirinho delicioso de tinta, onde se pode fazer as gostosas"marquinhas" e a possibilidade de voltar apenas virando suas páginas para reler algo que escapou durante a leitura. Quanto à grande imprensa, que se vá e logo. Ela tornou-se um deserviço à humanidade.

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