Louras e inteligentes

picture (11)Ora, há uns dois séculos, venho comentando a grande farsa da “loura burra”. E não me esqueço da Cicarelli, que – brincando de Cinderela no Palácio de Chantilly – enganou bobo na casca do ovo, a imprensa quase toda engoliu. Ou foi cúmplice.

É pena, mas pouca gente moça acredita em advertência de lobo velho, esse que perde o pelo sem perder o vício.Vejam jogadores de futebol: quando enriquecem, geralmente buscam braços de louras. O homem, bicho ativo, sempre cai em tentação. Desde Eva e Adão, tem sido assim. E, pelo que se conta, Eva era negra. Imagine fosse loura.

Como um escriba sabe de coisas milenares? Elementar, meu caro Watson. Pois já vivi quase tudo na vida e, quase tudo, vi. Vi cobras e lagartos, vi burro voar, vi santo pecar e pecador tornar-se santo. Já vi assombração, mula-sem-cabeça, lobisomem. A única coisa que nunca vi foi “loura burra”. Na tevê brasileira, há louras às pencas para confirmar a minha vã sabedoria de alcova.

Abro parêntese para lembrar do “politicamente correto”, que gente do governo queria transformar em cartilha brasileira. Ora, a besteira é antiga, vinda dos Estados Unidos onde a loucura a tal ponto chegara que despertou um estudo feito pela escritora Diane Ravitch nas mais diversas regiões de seu país. Diane divulgou um glossário de palavras e tópicos proibidos por escolas e editoras. A insanidade era coletiva. Até o Mickey Mouse fora censurado. Motivo: é um roedor. Proibira-se a historieta do “Golfinho Amigo”, acusado de descriminar crianças que moram distante do mar. Eliminaram-se até os extintos dinossauros, pois sugeriam uma teoria da evolução demonizada por algumas seitas. E a “loura burra”?

Pois aí está. Eu tinha receio, à época, de os congressistas brasileiros incluírem a “loura burra” no índex das palavras e expressões preconceituosas. Seria uma injustiça. Pois, insisto, “loura burra” não existe. Elas, as louras, são tão espertas que, para enganar otários, inventaram a lenda da própria burrice. Que as morenas andassem com diplomas debaixo das axilas, que queimassem sutiãs e liderassem movimentos feministas. As “platinum blondes”, mulherio esperto, estariam livres para enganar otários. Especialmente morenos ricos.

Os muito jovens não devem saber. Mas a balela – certamente inventada pelas feias – vem desde Marilyn Monroe, a mais bela e desejada mulher do mundo, embora fosse Ava Gardner, morena, quem nos fervesse o sangue. O esplendor de Marilyn estonteava. E as mal-humoradas começaram a comentar: “De que adianta tanta beleza, se ela é burra?” Vinicius de Moraes, doce poetinha, tentou explicar: “Desculpem-me as feias, mas beleza é fundamental.”

No entanto, o grito das feias permaneceu: “Loura é burra.” Nunca entendi. Pois Marilyn conquistou o herói do beisebol dos EUA, Joe Di Maggio. Depois, um dos grandes escritores da época, Arthur Miller. Em seus lençóis, enroscaram-se homens poderosos, incluindo John e Bob Kennedy. Burra, quem?

Com louras, tenho lá minhas cautelas. Já vi casos do arco da velha. Louras incendeiam. Um amigo, apaixonado por uma delas, escultural, exibia-a como troféu: “Vejam a minha linda loura burra!” Tempos depois, eu o encontrei na Rua do Porto, cotovelos na mesa, ouvindo Dolores Duran, a musa da “dor de corno”. O homem fungava: “Minha loura burra fugiu.” Ela tirara-lhe até o couro e fora viver, com outro homem, fogosa lua-de-mel em Monte Carlo. Loura burra não existe. Homem burro existe. E bom dia.

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