Lua, costela e clonagem

Sei lá eu quanto e qual o tempo que me sobra. Por isso, já decidi: quero morrer antes se propague a clonagem humana. E pedi para ser cremado e jogadas, as cinzas, em vasos de miosótis. É flor que tem outro nome: “não se esqueça de mim.” Então, em cada Primavera, ressuscitarei em miosótis para quem me amou e não se esqueceu de mim. Será uma outra aventura.

Não me interessa, pois, o mundo da clonagem humana. Nem o tempo. Pois não serão mais nem o meu tempo, nem o meu mundo. Deles, serão apenas destroços e ruínas. Para que vê-los? Não saberia suportá-los. Da mesma forma como quase não suportei quando chegamos à Lua, aquele misto de deslumbramento e pavor.

Naquele já distante 20 de julho de 1969, o Gijo Furlan me procurou na redação de “O Diário”. Gijo foi uma das mais belas figuras humanas de Piracicaba. Alma de criança, cabeça de anjo, coração de santo. Ele estava transfigurado. Com o jornal nas mãos e vendo a foto do astronauta na Lua, ele xingava-me: “Você é mentiroso. Está enganando o povo. O homem nunca chegará à Lua. Isso é contra Deus.” Fiquei rezando para que Gijo tivesse razão. Pois houvera tragédias demais: o AI-5, as mortes dos Kennedy, de Guevara, de Luther King e de outros. Mais feio ficara o mundo. E descobriu-se São Jorge não estar na Lua. Nem o dragão.

Quando Romeu saltou a sacada da alcova de Julieta, havia luar e, ao amanhecer, cantaram cotovias e rouxinóis. Era o que pensávamos ver e ouvir nas serestas às namoradas, quando também saltávamos muros e sacadas. “…a Lua nos convida a passear”. – era a canção e era a senha. Mas, com o homem na Lua, passou-se a ter um espião, um “voyeur”, uma intromissão mortal e definitiva em sonhos que acabaram ruindo. Foi terrível enfrentar. E, agora, a clonagem humana?

Algumas agora idosas senhoras chamam-me de machista desde quando, em 1968, a maluquice feminista passou a queimar sutiãs no mundo todo. Começou nos Estados Unidos, na eleição de “Miss America”. Enlouquecidas, as feministas, urrando e cantando, queimaram sutiãs à frente do Senado. Depois dos espartilhos, destruíam sutiãs. E eu fiquei indignado. Espartilhos, vá lá. Mas sutiãs, para quê? São tão bonitos e, afinal de contas, uma das mais belas invenções humanas foi a “lingerie”, convenhamos. Protestei: que o mulherio urrasse e gemesse e zurrasse – mas com sutiã, por favor.

Por isso, não suportarei a clonagem: sou de um mundo de homem e de mulher, ainda que se fale em terceiro sexo dominante. Mas não há um terceiro, há apenas dois: homem e mulher e, com eles, o céu e o inferno. Vá lá que existam variantes, cambiantes, luscos-fuscos, cinzas, luzes esmaecidas – mas há a noite, há o dia. Como o Sol, como a Lua. Não se separam, como que um bailado e seduções, a feminina Lua e o másculo Sol. Assim é com homem, assim é com mulher. Deles, construiu-se essa confusa e fascinante humanidade. Por que a maldita mania do dr.Frankenstein?

Tachado de machista, fiz, disso, diversão. Na redação, passei a pedir cuidado com informações de repórteres femininas. Pois, já na Idade Média, sabia-se desse misto de bobice e de dissimulação da mulher. Diziam os filósofos e teólogos: “Mulher tem cabeça fraca ou mente. Vejam a Eva. Todo mundo sabe que serpente não fala. Mas ela disse que ouviu. Ou foi enganada ou mentiu.”

Depois, porém, eu me dava conta de não ser possível, ao homem, viver sem a mulher ao lado. Pois, se saiu de sua costela, ela precisa voltar para preencher o vazio. Na clonagem, não haverá mais isso. Recuso-me a ver. Bom dia.

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