Luciano

LUCIANO-DO-VALLEDesde a Antiguidade, não há quem tivesse chegado a uma conclusão sobre o que é Vida. Mil definições, mil reflexões, mil teorias – enquanto os seres vivos vão-se multiplicando e extinguindo-se. Talvez, melhor fosse deixar de pensar na vida, o que é e não é, e passar a vivê-la. Nunca como em nossa era – pelo menos é em que penso – precisamos mais sentir do que pensar, aceitando o que diz o coração mesmo que em contrário ao que diz a razão. Errar pela razão dói. Errar por ouvir o coração é menos dilacerante, talvez mais ameno.

Nasce-se – vive-se bem ou vive-se mal – e morre-se. O ser humano – de todos os seres vivos – é o único que sabe irá morrer. Quando, onde, como – isso lhe é negado prever. Mas morre. E – por mais se insista ser, essa, uma das poucas verdades absolutas – a morte é recebida como se fosse novidade. Com choro, lágrimas, dores, desespero, inconformação. No fundo, trata-se apenas da continuação do mistério: se não se sabe o que é vida – a não ser pela simplicidade do cotidiano – como haverá de entender, aceitar, compreender a morte?

Nos cemitérios – pelo menos no da Saudade, cá em Piracicaba – há a inscrição, escolhida pelo professor Dario Brasil: “Omnes símiles sumus”. Ela sugere que todos somos iguais, semelhantes. Mas não é verdade. Deveríamos ser iguais apenas na morte, semelhantes apenas diante dela. Mas nem isso acontece. O homem anônimo, pobrezinho,solitário é enterrado sem velórios, sem choros e sem velas. Fica estirado numa maca destinada aos indigentes. Mas o homem poderoso, famoso, independentemente de suas qualidades morais, está numa sala especial, cheia de flores, com ar refrigerado, cercado de familiares saudosos, de amigos interesseiros, de falsos admiradores. Cada homem, pois, é um homem. Diferenciados até pelas impressões digitais. Portanto, ninguém é substituível, mas peça original.

Num tempo de celebridades, a morte de qualquer delas causa impacto maior, tornando-se manchete de jornais, de emissoras de rádio e de televisão. Quanto mais conhecido, quanto mais admirado ou querido, maior é o impacto, mais coletiva é a dor. Luciano do Valle morreu e esse impacto não pareceu natural a ninguém. Houve espanto, susto, consternação, perplexidade e inconformação. Mas Luciano não era apenas famoso ou apenas um dos mais brilhantes astros de uma constelação esportiva. Ele era querido. E, realmente, foi uma personalidade especial. A morte dele aconteceu, assim, mais sentida como o desaparecimento de um homem do que de uma celebridade.

Conheci, pessoalmente, Luciano do Vale. Mas, com ele, estive apenas três vezes. Foi quando da escrevinhação do livro “Magic Paula – Trajetória de uma campeã.” A Unimep me pedira para fazer uma biografia da estrela. Recusei-me, por ser, ela, muito jovem para já ser biografada. No entanto, aceitei se fosse para narrar a trajetória de uma campeã. Para entendê-la, entrevistei até astrólogos, pais-de-santo, além de um sem número de amigos e conhecidos dela, entre eles cronistas esportivos. Luciano do Valle foi um deles, talvez o principal pelo conhecimento que tinha das duas grandes campeãs, Paula e Hortência.

Foi-me uma experiência comovedora. Luciano não me recebia como um astro dos esportes, como uma celebridade. Mas como amigo, parecendo que me conhecia de longa data. Generoso, humilde, simpático, simples, parecia uma criança grande deliciando-se em contar o que sabia. Ele sentia-se feliz como se fosse eu que lhe estivesse fazendo um grande favor, quando era ele, Luciano do Valle, que me presenteava com seus depoimentos e sua generosidade.

Nunca mais consegui ver Luciano do Valle como narrador esportivo. Passei a vê-lo como um ser humano diferenciado. E é essa a lembrança que guardarei dele. Bom dia.

2 comentários

  1. Rubens Morandi Jr. em 22/04/2014 às 09:54

    Sem palavras chorei com esta notícia, Luciano um Homem de comunicação impar sem igual, fez a diferença na evolução de esportes menos conhecidos e difundidos.Que bom seria se nossos políticos seguissem seu exemplo, teríamos um país mais Luciano, mais coração!!!

  2. José Roberto Andrade em 23/04/2014 às 23:07

    Luciano do Valle, me faz lembrar de bons tempos que não voltam mais, como a inesquecível Copa da Espanha de 1982 e suas narrações fantásticas. O Brasil perdeu, chorei como muitos, geração que merecia ter ganho . Tinha eu 12 anos , brincava de futebol de botão e imitava as narrações de Luciano, tempos de inocência e sonhos, que saudades…

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