Lula, postes e tia Zizinha

Nos meus 20 anos, vivi um amor que parecia impossível. Era paixão da juventude, alucinante, incontrolável. Mas havia obstáculos impedindo ficássemos juntos, ela e eu. Resolvemos, então, no heroísmo da mocidade, fugir. Hoje, nem precisaria isso. Bastaria assumir, decidir e amar. À época, porém, seria um escândalo.

A moça tinha uma tia de nome Zizinha. Era nossa cúmplice, mulher vivida e sábia. Uma noite, ela nos chamou e perguntou se fosse mesmo verdadeiro aquele amor deveríamos vivê-lo e, sim, fugir. Mas e o escândalo, e a repercussão? Tia Zizinha deu-nos sua aula de sabedoria: “Todo escândalo dura apenas sete dias. Nos dois primeiros, é um choque. Nos outros dois ou três, os comentários fervem, há xingos e aplausos, mas tudo acaba no sétimo dia. A opinião pública é egoísta demais para se preocupar com outros problemas que não os de cada um.”

Não fugimos, o amor acabou. Mas até o final da vida – especialmente na vida profissional – carreguei o conselho de tia Zizinha. E, em especial, na atividade jornalística. Aprendi que a notícia tem prazo de validade. A sabedoria está em saber avaliá-lo, considerá-lo. O maior escândalo tem seus limites de repercussão. Se for pouco noticiado, deixa o leitor e a opinião pública insatisfeitos. Se for divulgado em excesso, causa saturação. E nada há de tão poderoso para criar banalidades do que a saturação. O mensalão – de tanto e tal mal explorado – saturou, enjoou, chegando-se ao ponto de o grosso da população nem mais saber do que, na verdade, se tratava. As sessões do Supremo se tornaram espetáculos, especialmente quando surgia a figura de Joaquim Barbosa, negro entre brancos, uma espécie de vingador da honra nacional. Mas saturou.

Os meios de comunicação, infelizmente, não conheceram os ensinamentos de tia Zizinha. E ficaram ecoando e insistindo no mensalão, tentando desmoralizar o PT e o Lula – como se os demais partidos fossem decentes e virgens – chegando aos limites da seriedade quando, com infantilismo, tentaram negar uma realidade que, por mais surpreendente, é concreta: a popularidade de Lula, a confiança que a grande maioria do povo mantém nele, o seu carisma.

Duvidou-se disso tudo, tentou-se desmoralizar esse fenômeno de liderança quando Lula escolheu Dilma como sua candidata.”Ela é um poste”. – disseram. E o povo seguiu a sugestão de seu grande líder e Dilma se revela essa notável presidenta, com força, personalldade, honestidade, equidade. Tentaram desmoralizar Lula elegendo Haddad como novo poste. E Lula, com a sabedoria popular – como a de tia Zizinha – aceitou a incumbência:”De poste em poste, vou iluminando o Brasil.”

Fico, pois, pensando em tia Zizinha: se os meios de comunicação – que têm, com raras exceções, reações alérgicas a Lula – soubessem um pouco da sabedoria popular e usassem – para usar outra palavra em voga – de dosimetria para a exploração dos escândalos, talvez José Serra pudesse chegar com menos fracasso a esse amargo fim. A exploração do mensalão em eleição municipal foi um tiro no pé. Ou Lula é, realmente, uma paixão nacional? Bom dia.

1 comentário

  1. Luiz Thomazi em 29/10/2012 às 13:51

    Oi, Cecílio, brilhante essa tia Zizinha, hein? Quanto à eleição do segundo lulaposte, que ilumina minha terra paulistana com a esperança da renovação, creio que houve as duas coisas: uma espécie de paixão pelo Lula e um duplo tiro no pé tucano, na exploração descabida do "mensalão" e também – não se pode esquecer – no discurso falso moralista do "kit gay", que teve a importante ajuda do pastor alucinado…

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