Luta pelo rio e equívocos

picture (16)Pergunto-me, há tempos – sem, no entanto, dar-me resposta – se toda essa já longa luta para salvar o rio Piracicaba não tem pecado por informação deficiente. Apenas o protesto e o lamento, dentro do município ou nas cercanias dele, não bastam. Há fatos históricos, questões políticas anteriores, promessas não realizadas e cochilos das lideranças que, penso eu, não foram bem avaliados. E isso permite equívocos. E até mesmo versões que nada têm a ver com os fatos, ainda que, quase sempre, elas sejam mais importantes do que estes.

A alma de Jacob Diehl Neto está solta por aí, acho que chorando ao longo desse maravilhoso trecho, quase paradisíaco, que vai de Monte Alegre até além da Ponte do Cachão. Ele foi uma das primeiras e mais veementes vozes, ainda nos anos 50, a rebelar-se contra a poluição do rio, ainda que a palavra não fosse usada. Poucos piracicabanos tiveram a força, a capacidade de lutar, a valentia e o talento para a polêmica e para o Direito como o velho e saudoso Doutor Jacob.A palavra maldita era “restilo”. E os culpados pelo restilo sempre foram os usineiros.

A borra era lançada ao rio que espumava, as águas sufocadas dos peixes mortos. O desrespeito e a morte já se anunciavam a partir da inversão da escala de valores: lucro é mais importante que a vida. O restilo das usinas anunciava a morte do rio que, nas palavras do também saudoso Felisberto Pinto Monteiro, “é um rio tão sem vergonha, mas tão sem vergonha que, quando se pensa que está morrendo, à primeira chuva ele renasce.”

O assassínio do rio Piracicaba tem um responsável, com nome e que tinha endereço certo: Roberto de Abreu Sodré. Ele enganou Piracicaba, enganando políticos crédulos como o foram Salgot Castillon e Domingos Aldrovandi. Sodré jurou, prometeu, garantiu: o Projeto Cantareira, desviando águas no nascedouro do Piracicaba, teria comportas reguladoras. Piracicaba acreditou, foi enganada. Ninguém soube ou conseguiu cobrar. Eram tempos do AI-5 e Abreu Sodré, além de líder revolucionário e conservador, tinha sido um dos criadores da triste OBAN, responsável por mortes e torturas cruéis. É esse o nome do culpado: Roberto de Abreu Sodré. E cúmplices ou comparsas os que vieram após ele governar São Paulo.

Estamos lamentando e é bom. Mas é preciso temer protestos equivocados,discursos que mais confundem do que esclarecem. Defendemos o quê, se desrespeitamos até a História? Redatores jovens e novos, em jornais locais, vinham insistindo – até mesmo no “Dia do Lamento” – em que o nome “Noiva da Colina” surgiu do “véu da Noiva” e que este seria a corredeira que despenca do Salto. Até autoridades municipais repetiram o engano.

Ora, que se lamentem, que protestem, que briguem. Mas respeitando tradições e história. Prometi que não mais tocaria no assunto, pois me cansei. Mas vá lá. “Noiva da Colina” é inspirado e gracioso epíteto que, no poema “Piracicaba”, Brazílio Machado deu à cidade. Publicado em 1º de janeiro de 1886, no jornal “Gazeta de Piracicaba” – a primeira, desaparecida no século passado – tornou- se imortal. E é no poema que surge a imagem do “véu da Noiva”: a neblina de nossas noites, a bruma sobre a cidade. Está lá, nos primeiros versos: “Sacode os ombros nus, ó Noiva da Colina/ Que a luz da madrugada encheu o largo céu;/E arranca-te das mãos o manto da neblina/ Que ondula sobre o rio, enorme e solto véu…” (grifos meus) Escrevi sobre isso, quase os mesmos textos, na Tribuna, no Jornal, em A Província impressa. Cumpro, sim, meu dever, mas cansa. Até agora, as secretarias municipais do Turismo e da Cultura parecem não ter aprendido a preservar símbolos. Bom dia.

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