Macacos e gente

QueNão creio que a questão – ainda em nível universal – seja de preconceito. Pelo contrário, acredito seja falta de conceitos. Jamais teria, eu, a audácia de escrever a respeito dos profundos significados de conceito. Digamos – superficialmente como cabe a um cronista de jornal – seja, o conceito, um signo, uma marca, a essência da coisa. Seria mais ou menos assim: uma coisa não pode ser de modo diferente daquilo que é. Logo, abacaxi não pode ser banana.

A referência a frutas não foi acidental. Pois estamos em momentos tão malucos que jogamos todas as frutas numa mesma cesta, misturando maçãs, peras, abacates, bananas, uvas, mangas – não mais sabendo aquilo que é o quê. E, na vida em sociedade, acontece o mesmo: vale tudo, não se sabe quem é quem, a diferença entre valor e preço, entre moral, imoral e amoral. Ora, faltando conceitos, é estupidez falar-se em preconceitos. Em especial, em relação ao chamado ser humano, ignorantes que nos tornamos  do conceito e do significado de humano.

Chamam-se pessoas de vaca, de cadela, de égua, de cavalo, de veado, de porco, de cachorro, de burro. E, também e obviamente, de macaco.  Mas o homem não percebeu, ainda, que os conceitos se perderam ou se confundiram na bagunça geral. Falar-se, hoje, por exemplo, em “vida de cachorro”, é referir-se a uma vida privilegiada, leve, fácil, feliz. Pois cães e gatos – em alguns setores da sociedade – estão mais bem protegidos e cuidados do que milhões dos antes chamados “seres humanos”, transformados em rebotalhos incômodos, descartáveis.

Vacas e cavalos e bois são tratados – em currais e em áreas especiais – com atenção especialíssima. Vaca dá leite e, portanto, dá lucro para quem a possui. Chamar, pois, mulher de vaca é valorizá-la. Mas ninguém sabe se a vaca sentir-se-ia agradada se fosse chamada de mulher. E cães e gatos? Pela vida que grande número deles leva, certamente haveriam, eles,  de se ofender se chamados ou tratados fossem como homens. Ser um “cão de raça”,um “cavalo puro-sangue”, ser um “gato” – parece ser um ideal masculino atualmente. Mas, o que pensariam o gato, o cavalo e o cão se tivessem a vida de multidões incalculáveis de homens?

Não é verdade que qualquer um seja verdadeiramente humano. O ser humano é uma construção generosa, fraterna, comunitária. Assim não sendo, torna-se apenas um primata diferenciado. Como, pois, falar-se em humanidade de uma forma geral, como um conceito? Há muitas formas de humanidade. E essa – do mundo descartável, materialista, egoísta, cruel – não é humanidade que valha a pena. Os referenciais não estão no universo do entretenimento, do espetáculo, da valorização do supérfluo desnecessário – mas naquilo que os gregos chamavam de Paideia, a formação cultural do homem não como um simples meio, mas como fim último. Qual o fim último que buscamos?

Fui abençoado por pequeninos sagüis terem escolhido as árvores de meu jardim para se abrigarem. No início, eram apenas dois macaquinhos. Agora, já são mais de 10. Eles dão mais alegria à vida, fascinam a criançada, encantam os adultos. Tornaram-se parte da família, espertalhões diante das bananas que comem e que podem me levar à falência. De tanto observá-los, aprendo a linguagem da natureza. E ficarei ofendido, gravemente ofendido, se alguém chamar meus macaquinhos de gente, dando-lhes nomes humanos. Por exemplo, o nome de Renan Calheiros.

Quando recuperarmos conceitos, iremos ver o outro lado da moeda: hoje, chamar um homem de macaco pode ser um gratificante elogio. Mas chamar macaco de homem, isso já é ofensivo. Acho que Daniel Alves, ao comer a banana, entendeu tudo isso. Bom dia.

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