Macaquinho e aviso

MacaquinhoO lugar onde moro passa por transformação vertiginosa. Era, até poucos anos, um espaço aprazível, com chácaras, sítios, espaços coalhados de árvores e plantas. A população, gente humilde e trabalhadora, vivia na simplicidade das coisas frugais. A pouco e pouco, começaram a se abrir avenidas, a fazerem-se pontes, a rasgarem-se condomínios e vimos, então, árvores arrancadas, sebes e matagais ocupados. Dizem ser, isso, progresso. Tenho, comigo porém, lá, minhas dúvidas. Nada há de bom em inchaços.

Não sei mais quantos são os condomínios amplos plantados na região, indo direção à nova cidade a ser construída em terras da Unimep. Fez-se a especulação possível e imaginável. Terras de amigos do rei foram valorizadas. Motoniveladoras tiraram o húmus do solo, o asfalto imposto também pelos cortesãos da corte imperial.

Durante algum tempo, lidei com morcegos frugívoros, que se alimentavam dos frutos das árvores e cumpriam a sua missão de semeadores. Meu jardim é testemunha do plantio de morcegos, de passarinhos, plantas e novas árvores nascidas pelo milagre da natureza. Aprendi a cuidar de morcegos, quando me invadem a casa, alojando-se no forro. Consigo espantá-los para que retornam a seu trabalho produtivo de avivar a natureza ou, então, os apanho com luvas e os devolvo a seus espaços noturnos.

De um dos sítios próximos que ainda resta, surgem gambás, pequenas raposas, gatos vadios com sua festa ruidosa de procriação. Novos pássaros, para mim desconhecidos, começaram a aparecer e nem sequer sei nomeá-los, mas perco o fôlego com sua beleza e a maneira folgazã como vivem, espalhando alegria pelo ar. Acostumei-me a pensar estar cuidando de uma partezinha minúscula desse imenso e hercúleo trabalho de reconstrução do paraíso perdido. Acabei, até mesmo, acreditando nisso. E sei, no silêncio e diante de maravilhas tão banais que são esquecidas, que o paraíso é mais fácil de que encontrar do que se pensa. Às vezes, pode estar ao alcance das mãos, à distância de um olhar.

Há poucas semanas, apareceu-nos um tucano, um de verdade, não o de legenda humana. Tucano de bico que parece desafiar as leis da aerodinâmica, com seus berros ásperos, com sua beleza cativante. E, depois, outro. Era possível perceber fosse um casal de tucanos. E era mesmo, pois, surgiu um filhote que, pelo visto, está aprendendo a voar. É um bailado e um espetáculo que explicam porque o Bolshoi imita o voo das aves, o mergulho dos peixes.

Agora, meu amigo porteiro veio me perguntar se o macaquinho estava nas árvores de meu jardim. Não entendi. Macaquinho? Sim, um macaquinho, de rabo muito longo, que estivera saltando de galho em galho. Começamos a procurá-lo e precisei aumentar o estoque de frutas à disposição da bicharada. Ainda não vi o macaquinho, mas ouvi seus guinchos fracos. Faço silêncio, troco Mozart por Bach para ver se os bichinhos se aquietam ainda mais, reconhecendo algo de divino em meio à humanidade de que eles fogem.

Beija-flores e flores, passarinhos, gambás, raposinhas, tucanos e, agora, um macaquinho. De um lado, a alegria, a sensação de um privilégio que bem me faz. E, de outro, o aviso claro, inequívoco, doloroso, clamando aos céus: eles estão em busca de refúgio, expulsos que têm sido de seu habitat natural. Até quando? Penso em Pascal que, vendo o ser humano em comparação ao prodígio da natureza, disse ser frágil como um caniço. Mas “caniço pensante”, completou. Já não consigo crer. Os pensantes estão se tornando uma minoria. E os irracionais humanos, maioria aterradora. O silêncio dos céus é, para mim, prova eloquente de que os deuses estão dormindo e já desistiram. Bom dia.

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