Madalena (ainda) e pastores

E, afinal de contas, o povo sabe mesmo votar? Essa simples – mas comum e banalizada – pergunta já revela o descrédito na nossa ainda incipiente democracia. Outra afirmação – na mesma linha de pensamento – é a de que “o povo tem o governo que merece”. Acontece, porém, que tal assertiva já é uma resposta à pergunta anterior. Se o povo merece o governo que tem, isso significa, então, que o povo sabe votar. Ou seja: vota em quem e em partidos que lhe respondem às expectativas. Quando não encontra nada ou ninguém, vota em branco, anula ou se abstém de votar.

A estrutura político-eleitoral é, sim, falha, viciosa, artificial, viciada. No entanto, é a que ainda temos e, portanto, a arma democrática possível para a manifestação do povo. Manipulação de voto, currais eleitorais, partidos de aluguel, seleção de candidatos irresponsável, esses são problemas que fazem parte da natureza viciosa original. Se a raiz é perversa, os frutos também o serão. Votar nulo ou abster-se de votar – eu me abstive – são formas de não participar desse processo. Quem o aceita ou acredita poder melhorá-lo participa. Então, escolhe aqueles que os partidos escolheram anteriormente. Ou seja: a opção que tem, quase sempre, é votar no menos ruim, no mais simpático, até mesmo no mais divertido. Ou deixar-se levar pela onda. Consciência, em meio a naufrágio, é qualidade raríssima.

A vitória de Madalena tem sido, às vezes, mediocremente comentada e analisada conforme visões preconceituosas ou apenas elitistas da nossa realidade sócio-política. A análise tem que ser mais ampla e séria, mais honesta – porque significa um momento que valoriza o direito do eleitor ao voto. Pois, se houve voto consciente – seja para prestigiar uma candidatura ou para protestar contra o sistema – esse foi o voto dado a Madalena. Ninguém, ao votar nela, o fez por engano, equivocadamente. Todos sabem quem e como é Madalena, sem subterfúgio algum. Ora, Por que, entre tantas interpretações, não se pensa mais seriamente num outro e novo momento destes tempos também em nossa cidade? Por que não se esforçar por admitir que Madalena é um dos ícones populares de Piracicaba, tão conhecida como o “Nhô Quim”? Como candidata, ela não foi nem o novo, nem o estranho.

Se, pois, melhor analisarmos essa opção de muitos por Madalena, deveríamos atentar para uma resposta eleitoral que, a meu ver, tem mais significação, pois reveladora de derrotas institucionais e ideológicas: a votação dada a pastores de igrejas evangélicas. Um que outro se elegeu, mas esse número quase escandaloso de candidatos de igrejas evangélicas não deixa de ser revelador de uma lastimável mistura entre religião e política, entre a vida laica e religiosa. Porque – ao contrário de Madalena, que é uma pessoa – igrejas são nichos ideológicos que, portanto, trabalham com consciências e podem manipulá-las.

No fundo, no fundo, há uma profunda e paradoxal ironia entre a espetacular votação de Madalena e o pífio número de votos de tantos pastores evangélicos. Pois enquanto estes pregam um moralismo fundamentalista e primitivo – de caráter homofóbico e manipulador de consciências – Madalena sempre foi um símbolo dessa vida “à gauche”, a “outsider”, a que soube conviver e coexistir – sendo respeitada e querida por isso – numa e com uma sociedade aturdida em questões morais e capenga em seus tabus deteriorados.

O radicalismo fundamentalista e moralmente capenga de pastores foi recusado pela imensa maioria de leitores. A moral sexualista deles não impôs respeito. E, no entanto, Madalena foi consagrada. Por quê? Que o respondam os analistas de plantão. Em minha simplória opinião, o mercantilismo e a hipocrisia religiosos foram repudiados. E Madalena foi reconhecida como pessoa humana, não por sua sexualidade. Afinal de contas – convenhamos – com sua alegria, com seu jeito de ser generoso, Madalena sempre pareceu, aos piracicabanos, uma pessoa assexuada. Ou não?

Se o povo sabe ou não votar, isso é discussão de conveniências. O que, no entanto, se anuncia, há milhares de anos, é que “Vox Populi, Vox Dei”. Será? Bom dia.

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