Mais croissants para Maradona

picture (45)Com a goleada que a Argentina levou da Bolívia, fiquei com receio de o Maradona ter uma recaída de suas dependências químicas. A última, ou penúltima, sei lá, foi de dar inveja. Pois ele alegou ter sido levado ao hospital vitimado por overdose de croissants. Tal bom gosto deu, à época, água na boca. Antigamente, dizia-se de lombrigas em quem passasse vontade. Escrevi por aí que, com medo delas, das lombrigas, nunca passei vontade alguma. Para quê?

Os croissants de Maradona despertaram-me gulas. Mas me forçaram a pensar coisas. Mais coisas. E aumenta minha desconfiança, uma quase certeza: o ser humano não é criação divina. Não pode ser. É acidente. Somos animais muito estranhos, esquisitos, com fomes excessivas, dependências que se não acabam, insatisfações intermináveis. Outro dia, surgiram informações alarmantes do mais novo problema a preocupar as nações desenvolvidas: enquanto um terço da humanidade passa fome, a obesidade aumenta assustadoramente na Europa e nos Estados Unidos. Uns com carências totais; outros com excessos repugnantes. Quem inventou esse bicho humano?

Morrer de tanto comer croissants – admitemo-lo – é de uma originalidade extraordinária. Morrer, morre-se de tudo. Morre-se de fome, de sede, morre-se de desamor e morre-se de amor. Morre-se de doença, morre-se de morte matada e de morte morrida. Mas nunca ouvi dizer de alguém morrer de overdose de croissants. Pelo menos, deve ser agradabilíssimo. Morte ainda mais doce do que a delícia de que nos falou o Caimmy, de ser “doce morrer no mar.” Mais doce é morrer empanturrado de croissants, trufas, chocolates, licores. Deve ser.

De Dona Redonda, quem se lembra? No século passado – imagine, dizer de século passado com tal intimidade – mas, no século passado, não precisava ser noveleiro para conhecer Dona Redonda, a personagem do Dias Gomes, em “Saramandaia”, que explodiu. Eu via o Maradona, pensava nela. E se o Maradona explodisse? Se acontecesse, eu gostaria de ver. Mas não é nisso que estou pensando. Penso na inviabilidade do ser humano, cada qual com seu vício: jogo, bebida, cigarro, sexo, drogas, bingo, livros, tevê, internet, computador, até religião pode virar vício. E croissant.

O fato é que Maradona deixou-me com pensamentos perigosos, idéias temerárias, tentações excitantes. Qual a sensação de overdose de croissants? Pergunto-me por não me sentir tentado a morrer empanturrando-me com tais doçuras. Penso em overdose de outras coisas. As ainda possíveis, bolas. Pois cada tempo é um tempo. Conforme o tempo das pessoas, há coisas possíveis de overdose; outras, inviáveis; impossíveis algumas. No passado, cheguei a pensar em morrer, por exemplo, de overdose de Ava Gardner. Agora, não dá mais. Pois ela morreu, né? E estou pensando em outras gulas.

Ora, eu trocaria, por exemplo, croissants por uma overdose de pipoca. Até me vejo diante de uma, duas, dez baciadas de pipocas, portas fechadas impedindo neto me olhar com olho comprido: “dá um pouco, vô?” Não, não dou. Que ninguém se meta com pipoca minha. Ou melancia ou jabuticaba. Não seria fantástico ser levado ao hospital em maca, explodindo, enfermeiras correndo, médicos chegando: “É overdose de pipoca, rápido!”? E overdose de quibe, de pastéis, do pão dos Soledade? Já estou com água na boca. Para morrer disso, viver é ótimo.

Maradona me intriga. Mas dó, não tenho mais. Depois da surra que levou da Bolívia, ele pode, para matar a mágoa, morrer de overdose de croissants. Mas morrerá feliz, o que já é uma vantagem. E bom dia.

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