Maldição sobre políticos

As pessoas de bem, penso eu, deveriam fazer uma corrente espiritual pela higienização da classe política brasileira, a começar dos municípios. Minha sugestão é a de, a cada manhã – e em diversos momentos do dia – criar-se uma imprecação coletiva que abominasse políticos, como numa maldição. Um exemplo: “Que os céus amaldiçoem os políticos corruptos pelo colapso moral que causam às novas gerações.” E acho que seria pouco. Pois, por mim, a maldição sobre políticos corruptos deveria cair até, no mínimo, à terceira geração deles.

Pois está na hora de uma rebelião em massa, um protesto monumental, coletivo, geral, sem temores contra a corja de homens e de mulheres que, aboletados em todos os níveis do poder político, desgraçam esta nação e arruínam a vida do povo brasileiro, especialmente os mais humildes. E a começar pelos municípios, pois vereadores acompanham, descaradamente, a desfaçatez que nos vem do Congresso Nacional, que passa pelas Assembléia e contamina as Câmaras Municipais. Ou é o contrário: a desfaçatez começa nas Câmaras e se aperfeiçoa no Congresso?

Ruy Barbosa foi profético ao advertir a nação de que chegaria o tempo em que o homem de bem teria vergonha de ser honesto, tanto seriam solapados os alicerces morais da nação na banalização do vício e da sem-vergonhice. No entanto, até esse período passou, pois, agora, chegou o tempo em que estamos diante da quase absoluta desimportância de ser honesto, como se honestidade fosse tolice, idiotice de quem a tem e de quem a transmite. A apologia, agora, é a da desonestidade sob o nome de esperteza e de competência, na consagração do rouba mas faz de Adhemar de Barros. Junto ao povo, a fórmula vingou: “Sim, eles roubam, mas fazem.” E quase ninguém – incluindo, nisso, elites culturais, empresariais e até mesmo religiosas – se dá conta do colapso moral que alcança a juventude, filhos e netos dos também omissos e dos comprometidos.

Por que um jovem iria, hoje, acreditar na honestidade, no esforço, na decência, no valor próprio, na meritocracia se, olhando a classe política, ele vê privilégios imorais e absurdos, impunidades totais? Que empresário, sejamos francos, contrataria para funcionário de sua empresa qualquer dos milhares de vereadores pelos salários que eles recebem? A quem, empresas sérias dariam tantas mordomias exigindo tão pouca reciprocidade? Como essa gente pode se aposentar após tanta sordidez, enquanto o povo luta décadas para morrer com salários infames?

Quando Brasília fica sob o domínio de José Sarney, de Fernando Collor, de Renan Calheiros, do PMDM moralmente falido há tantos anos, do PT arranhado por tantos escândalos e de um PSDB comprometido até os ossos – quê esperanças ter na classe política? O que dizer aos jovens quando José Sarney diz, candidamente, que não sabia estar recebendo, em sua conta bancária, 3.800 reais a título de auxílio moradia? Quantos são os pais de família que recebem tal montante como salário?

Desgraçadamente, já não se pode mais sequer falar em exceções. O exemplo dramático e trágico é o do Senador Suplicy, fazendo a namoradinha passear pelo mundo com passagens pagas pelo povo, ele, Suplicy, que tanto fala em renda mínima e solidariedade aos pequeninos. Falta de vergonha é pouco. E reafirmo-o com a experiência de quem vive o jornalismo há 53 anos, tendo acompanhado praticamente todos os períodos da vida nacional e piracicabana desde o pós-guerra, a segunda. Corrupção houve sempre, mas não nesse nível, nessa situação pandêmica. Rogar aos céus que enviem maldições sobre políticos corruptos não é mais um desabafo, mas dever de cidadão, necessidade vital de sobrevivência de um povo. Nossa juventude está sendo destruída pela corrupção da classe política. Isso é maldição contra inocentes.

Que tal perguntar ao vizinho, ao colega, ao amigo mais próximo: “Você já amaldiçoou um político hoje?” Quem ainda não fez que o faça. E bom dia.

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