Maldições sobre o Bongue (II)

picture (7)Presença da Inhala Seca

Realmente “há mais coisas, entre o céu e a terra, do que supõe a nossa vã filosofia”, como disse Hamlet, através da pena do bardo imortal. E é óbvio que – para políticos sem qualquer filosofia senão a do imediatismo – a cultura do povo, o sagrado das tradições, lições da história e mesmo o religioso da simplicidade humana pouca importância têm. Ora, pode-se não acreditar em bruxas, mas que elas existem, existem.

Há, em Piracicaba, o tabu. E tabu é o intocável. Quem se atreveu, por exemplo, a mexer com a Igreja do São Benedito foi alcançado pela ira sagrada oculta no ar. Quando Adilson Benedicto Maluf chegou á Prefeitura, sua saudosa mãe fê-lo prometer que não criaria modismos em torno da secular e sagrada igreja, a dos negros escravos, a do rosário. Pois ela sabia o que acontecera a prefeitos que imaginaram desapropriar ou derrubar a igreja: Luciano Guidotti, Cássio Paschoal Padovani, morrendo em pleno exercício do cargo; Salgot Castillon, cassado em seus direitos políticos pelos militares.

E o chamado “Jardim da Fábrica”, onde está a Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, a viúva de Luiz de Queiroz? Ora, naquele jardim, pairou, por muitos anos, a sombra do “Homem da Capa Preta”, que atacava indefesas funcionárias da fábrica. A maldição era tanta que aquele, um cemitério de índios, impediu qualquer coisa prosperasse a seu redor. Até o Palacete glorioso se tornou sombrio. E ainda é. Quando José Machado mandou embelezar o local ao lado do qual haveria de surgir uma boate famosa, dei-me o direito de adverti-los: “Fantasmas de índios, do Homem da Capa Preta, a boate não irá para frente.” Não foi. Nossa vã filosofia sabe pouco.

No Bongue, a Inhala Seca impera num silêncio tétrico, fúnebre, aparentemente inofensivo. Mas tudo é sombrio, apesar dos esforços de Nelson Torres em sua paradisíaca chácara, apesar dos grandes projetos de João Chaddad em relação àquelas terras. Piracicaba esbarrou, desde o tempo da escravidão, na alma penada da Inhala Seca, uma história já contada no Almanaque de 1900. Quando se tenta mexer no local, há estrondos na pedreira. Em madrugadas frias, passar pelo Bongue arriscar-se a encontrar com a bruxa, ainda busca de seu noivo ou de quem a leve a Pirapora, prometendo tesouros.

Mexeram com o Bongue, coisas começaram a acontecer: a Cicat abriu avenidas, deram o nome do velho Abel Pereira (avô de Abelzinho) a uma das avenidas, fizeram a heresia de tentar alterar nome Estrada do Bongue para Avenida Jaime Pereira (pai de Abelzinho) e, pouco tempo depois, surgiram sanguessugas, máfia de ambulâncias, máfia das casinhas, abalos em construtoras e em empreiteiras, mortes súbitas. Estão mexendo com a Inhala Seca. E nossa vã filosofia não a entende.

Na curva do rio, perto do Bongue, a lenda diz que Nossa Senhora dos Prazeres foi-se embora lamentando a ingratidão de que foi vítima: “Esta jamais será uma cidade grande.” É aviso, é bênção: Piracicaba tem sido uma grande cidade por evitar tornar-se cidade grande, caótica, feroz, desumana, como essa que se pretende criar em nome do etanol, de parcerias confusas.

Logo abaixo, na Ponte do Cachão, cachoeira – que sintomaticamente políticos insistem em chamar de Caixão – é lá que aparecem os que, pela lenda do rio, morrem em época de seca, em tempo de cheias. E, nas Ondinhas, quebravam-se barcos, vapores de transporte fluvial. Para fugir da Inhala Seca.

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