Marina, morena Marina…

Marina SilvaConfesso nunca ter compreendido Marina Silva como ser político. Admito até possa ser deficiência minha. No entanto, foi como se uma estranha intuição me impedisse de ter uma ideia clara sobre essa mulher que, de fato, se apresentou como novidade na vida pública brasileira. Sim, a história de vida dela é admirável: seringueira, analfabeta até a adolescência, portadora de uma enfermidade crônica, vencedora na vida pessoal e política. Enfim, um exemplo de “self made woman”, a que cresceu por si mesma, movida por suas convicções. Mas…

Talvez, para mim, haja uma explicação: eu tenho medo da mosca azul, que causa desastres a quem  a encontra. Num conto ou num poema – já não me lembro bem – Machado de Assis dizia de como um carpinteiro enlouqueceu após ter encontrado a mosca azul. Se foi parabólica a narrativa, tornou-se algo temível – mas sempre repetido – na vida profissional e pública, quando o sucesso é alcançado. Mordida pela mosca azul, a pessoa se transforma. E – sei lá porque, a não ser pela intuição – eu tinha certeza de que Marina Silva – aparentemente tão simples – seria mordida pela mosca azul. E foi. E já não é mais a mesma que encantou tanta gente, embora, a mim, me tivesse deixado sempre na expectativa, para não dizer na desconfiança.

No final dos 1940, início dos 1950 – não me lembro bem, tal a distância – Dorival Caimmy compôs uma canção que maravilhou o país, por sua simplicidade mas, em especial, por uma constatação. O nome da música: “Marina”. E ele, com a doçura que lhe foi peculiarr, advertiu a sua musa:

“Marina, morena Marina/você se pintou./
Marina, você faça tudo,  mas faça um favor/
Não pinte esse rosto que eu gosto,
que eu gosto, e que é todo seu/
Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu/
Me aborreci, me zanguei/ Já não posso falar/
E quando me zango, Marina, não sei perdoar.”

Dizia-se, até aqui – comparando as duas poderosas mulheres da política brasileira, ela e a presidenta – que Marina é uma “sonhática” e Dilma, uma “realizática”. Em resumo: Marina, uma sonhadora, teórica; Dilma, a mulher prática, de ação. A imagem de Dilma continuará mesma, goste-se ou não de seu jeito de ser. A de Marina – para azar dela mesma – se esvaneceu. Ela – depois de abandonar seu projeto e ingressar num dos partidos que ela tanto estigmatizou – deixou de ser para se transformar ninguém sabe mais em quê ou em quem. Marina, a morena Marina se pintou. E mudou o rosto que seus aficcionados tanto gostaram. Marina se esqueceu de que era bonita com o que Deus lhe deu, seus ideais e sonhos. E é óbvio que muita gente se aborreceu, se zangou. E quando o povo se zanga não sabe perdoar.

De qualquer maneira, Marina Silva – pondo ou tirando disfarce – levou a política brasileira ao mesmo lugar de sempre: os mesmos partidos, os mesmos conluios, a mesma busca do poder, a maldição da mosca azul. Marina já deixou o PT, deixou o PV, quis criar o próprio partido e, agora, caiu no PSB. Ou ela não sabe o que quer ou não sabe conviver com outras ideias que não as suas. A política, como teoria, tem grandes espaços para sonhadores. Mas, na prática, exige realismo

Marina, a morena Marina se pintou. E não ouviu os que a admiraram: “Marina, você faça tudo, mas faça um favor./ Não pinte esse rosto que eu gosto, que eu gosto, e que é todo seu./ Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu.” Era.

A mosca azul faz estragos. Bom dia.

1 comentário

  1. Delza Maria Frare Chamma em 08/10/2013 às 09:21

    Cecílio não podia ter sido mais feliz nesta análise sobre a Marina, morena, que um dia, mordida pela “mosca azul”, tornou-se ou mostrou-se como o oposto do que desejou sempre aparecer. Superou-se Cecílio, amigo! Deu a Marina, “moça humilde das florestas”, como gostava de aparecer, a dimensão que ela fez por merecer: – pragmática, se por pragmática consideramos a ambição desregrada pelo poder a qualquer preço, até mesmo a união com os ruralistas inimigos de sua floresta e dos povos que a habitam. Valeu, Cecílio! Vai para meu facebook.

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