Mas o mundo já acabou

Parecem-me absolutamente tolos esses receios e previsões de que o mundo irá acabar agora neste mês de dezembro. Ora, será que ninguém percebeu que ele já acabou? Nasci ao explodir das bombas da II Guerra Mundial, repito-o sempre, em 1940. Discutiam-se, ainda, as repercussões e transformações causadas pela I Guerra, que devastou toda uma engenharia cultural, econômica e política no mundo.

Aquele mundo acabou. Depois, vieram outros, os de minha geração onde, sucessivamente, surgiram os beatniks, hippies, yuppies e, agora, dizem haver uma geração Z, sei lá o que é isso. Se a ciência evoluiu assustadora e espetacularmente, as humanidades foram entrando em decadência, um declínio lento mas decisivo. Eric Hobsbawn – marxista e um dos maiores historiadores mundiais – contou-nos em uma série de livros – Era do Capital, Era da Revolução, Era dos Extremos, entre outros – registrou e analisou essa morte lenta do mundo de cada época. O Século XX foi o mais breve de todos. Começou tarde demais, terminou muito antes de se fechar o calendário.

Rendo graças por ter visto e acompanhado todos esses mundos e os finais deles. É óbvio que a angústia é maior pois me vejo como alguém que, já tendo percorrido a estrada, retornou sabendo que nada havia ao final dela. E que, por isso, se entristece vendo a manada humana correndo, alucinada, atrás do nada. Há uma ansiedade coletiva focada apenas no lucro, na carreira, na competitividade. Já ouvi de amigos – trabalhando na mesma empresa – dizendo, uns para os outros, “eu vou matar você hoje”, na disputa pelo mesmo cliente. O individualismo é a mãe e o pai de todas as doenças morais e materiais. Quando se perde o senso de comunidade, de coletivo, perde-se, também, a noção de nação, de pátria. E de cidade. Quantos vizinhos – morando lado a lado, no mesmo andar de um prédio de apartamentos – realmente se conhecem?

No entanto, ter paciência é preciso. Nem falo mais de esperança, que esta pode parecer uma posição estática, passiva, alienada. As explosões acontecem, continuam ocorrendo. A fumaça, a poeira, os destroços estão, ainda, todos toldando as visões, impedindo se veja a paisagem. Quando a poeira baixar, haveremos de ver as ruínas do que a economia de mercado, o egoísmo individual e coletivo fizeram. O homem que comprou – conforme anunciou uma revista – um dos dois únicos carros cuja pintura foi feita com pó de ouro, pagando 2, 9 milhões por ele – ficará abismado, admirando a sua conquista paralisada na garagem ou na sala de visita, pois não tem por onde trafegar.

Acabamos confundindo as vantagens da tecnologia – que nos permitiu maior acesso à velocidade e a rapidez – com a estupidez da pressa. Não somos rápidos no que fazemos ou pensamos. Estamos apressados. Há uma pressa angustiante, neurotizante, tolamente paradoxal. Vamos a um restaurante e queremos ser atendidos com rapidez. Mas nos rebelamos se o mesmo garçom der indícios de que está nos apressando para comer. Peço, ao plano de saúde, a maior velocidade e rapidez possíveis para conseguir uma consulta, mas nos revoltamos se o médico nos atende com pressa.

É este mundo – que sucedeu aos anteriores que morreram – que está prestes a acabar. Um mundo de aflições, de angústias, de pressas, de correrias idiotas, de vidas sem sentido, de irracionalidades consumistas, de obsessões materialistas – é esse mundo que está prestes a acabar. E este Natal – já pleno de ansiedades e aflições – pode ser, sim, o indício do fim desse mundo sem sentido. Ninguém agüenta mais, ainda que não o saiba conscientemente ou não tenha coragem de falar. Estamos – eis no que acredito – com terrível nostalgia e vazio de espiritualidade, do divino e do sagrado. E isso independe de religiões. Há, no interior de cada homem, a intuição do transcendente. Quando ele a esmaga propositalmente, não há saída: tudo acaba. O fim do mundo é o fim desse mundo sem espiritualidade. Que começa a ressurgir em todas as manifestações de desassossego. Desde terrenos de candomblés, desde a credulidade em pastores messiânicos até aos divãs de analistas. É o fim de um mundo, sim. Bom dia.

1 comentário

  1. Marisa Bueloni em 29/12/2012 às 13:32

    Sim… Acho que o mundo já acabou várias vezes.
    E ninguém viu. Há a ideia de que a Criação ainda não acabou.
    O mundo ainda está sendo criado. E já querem o fim dele…
    Bem, mas diante de certos eventos catastróficos de hoje,
    começo a pensar que este mundo não vai muito longe…
    Abraços da Marisa

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